MEU VOTO É NO ROBÔ
Em Congresso Nacional do Ministério Público, em 2003, defendendo tese que ao final foi aprovada, abordei quanto à omissão dos agentes políticos em zelar pelo cumprimento de dispositivo constitucional de proteção em face da automação, o que um dia poderia também alcançá-los.
Embora o assunto ainda não fosse tão marcante quanto hoje, uma década e meia depois, discorri, à época, que a indústria da automação não estava disposta a voltar suas propostas para substituir inclusive os agentes políticos mais por necessidade de cooptação do que por espírito tecnológico-científico/econômico financeiro.
Firmes na acepção de que o mundo será sempre melhor se houver mais de “nós” e menos “deles”, nos despreocupamos quando, de forma concreta, “eles” foram lançados às favas, já que, nesse período, acompanhamos centenárias profissões minguarem ou sucumbirem, a pretexto de que isso auxiliaria “eles” a se transformarem em “nós”, com a humanidade livre de trabalhos repetitivos, deslocando seu tempo para atividades mais prazerosas da vida.
De lá para cá, com os vazios deixados em razão da obsessão pela ocupação dos espaços “deles” e cada vez mais perigosamente perto dos “nossos”, tornou-se impossível a manutenção da sutileza kafkiana original, de forma que arrastou-se, então, para o convencimento de que o mundo atual é “inteligente” e cada vez mais assim o será, contudo, se fazendo necessário que bem antes de “nós” e mais ainda “deles”, haja muito mais “disso”, que, aliás, você vê em toda parte, portanto,...
Diariamente confrontados com nossas diferenças e limites em imperfeições e inteligências, com a massificação de robôs que já “nascem”, a cada dia que passa, muito melhores” (e bem mais baratos!), é dessa forma que assistimos à desvalorização do trabalho humano, na linha da filosofia tipo “nade ou afunde”, como adverte Zygmunt Bauman, em “Vidas Desperdiçadas”: “o prêmio que você pode esperar, de forma realística, é trabalhar por obter um hoje diferente, não um amanhã melhor. O futuro está além do seu alcance (...). Preocupações de longo prazo são para os crédulos e imprevidentes” (p.132).
Premissa básica dessa engrenagem é a de que você é peça sempre defasada, vale bem menos do que custa, além de facilmente substituível! Daí a importância da manutenção de um exército de desempregados à espreita, crises que possam diminuir as expectativas e facilitar reformulações, além, óbvio, do seu desprestígio íntimo e social, inserido ou próximo do crescente rol de ocupante de tarefas “descartáveis”, objetivando, no fundo, facilitar a assimilação de sua troca por um robô.
Como essa tônica de “crescimento sem emprego” embala fortemente o poder econômico, aliado extremo do poder político, no fundo, enquanto as alterações se agigantam, os estados se apequenam, porém, como não poderia ser diferente, mediante enorme pompa e simbolismo aos seus atos de mera chancela e submissão.
Se a Constituição Federal, há 30 anos, ao dispor sobre a ordem social, estabeleceu que a mesma “tem como base o primado do trabalho, e como objetivo o bem-estar e a justiça sociais” e essa primazia, atualmente, se encontra tão relativizada, obviamente, não se pode esperar algo muito diferente da triste realidade brasileira, com seu quadro de milhões de desempregados e indiferente súdita da robotização como fim em si mesma.
Como previa, é chegada a hora dos agentes políticos: a par de tudo isso, as cidades estão tão inteligentes que já merecem governos eletrônicos. Logo, meu voto é no robô!