quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Não porventura desventura, mas por ventura aventura



NÃO PORVENTURA DESVENTURA, MAS POR VENTURA AVENTURA 

  Isso se dá no dia 15.11.18, quinta-feira. Estou em Natal acompanhando a filha Laís nos Jogos Escolares da Juventude. Estamos fora de casa desde sábado, dia 10, pois ela, antes, estava em Goiânia, onde participou da terceira e última etapa do Campeonato Brasileiro de Aquathlon. 

  Nesse pouco tempo, contudo, muita coisa pode mudar, como se avolumam os meus compromissos em Vitória, que me induzem a tentar retornar o quanto antes possível. Por volta do meio-dia de hoje se encerra a participação da Laís, cujo retorno, junto à delegação espírito-santense está previsto para a madrugada de sábado. O meu vôo de volta está marcado para amanhã, sexta-feira, dia 16, saindo ao meio-dia até Guarulhos, traslado para o aeroporto de Congonhas e chegada em Vitória às 21:50. 

  Assim, monitorei vôos para fazer alteração. Havia um que saia às 14:30, via Brasília e chegava em Vitória, salvo engano, às 21:50, porém, muito cara a mudança. 

  A outra alternativa, bem mais econômica, seria sair às 18:30, com chegada às 23:00 horas em Guarulhos e daí para Vitória às 5:40 com chegada às 7:20. Ou seja, na melhor das hipóteses, chegaria aos pedaços, mas teria a sexta-feira para afazeres, o que significava muito para mim. 

  E foi dessa forma: embarquei nessa "canoa furada", ou melhor, "vôo furado".... 

  Antes, contudo, consultei bastante sobre maneiras de "sobreviver" da melhor maneira possível a uma noite no aeroporto, mais especificamente no de Guarulhos (encontrei até "manual" a respeito!). As opções que considerei "mais viáveis" eram um hotel com "cubículos", digo, aposentos no próprio interior do aeroporto ou uma aventura de "mochileiro" nas cadeiras ou "vias" do recinto. 

  Como sou otimista, pensei logo no lado bom (e existe?) da (des)aventura(?): afinal, quando é que terei outra "oportunidade" dessas? Uma vida sem histórias é um livro com suas páginas em branco... Vamos preenchê-las, então! 

  Mas não precisava, logo de início, ser tão desalentadora a perspectiva: ao proceder a troca da passagem e fazer o "check in", me recusei a pagar pela "seleção" de assentos, mesmo porque já estava no prazo de 48 (quarenta e oito) horas antes do vôo e entendo que não poderia ser mais cobrado, já que a informação tocante à reserva de assentos é relativa à marcação antes do "check in". 

  De nada adiantaram os meus "protestos" à companhia aérea, embora esteja absolutamente convencido de que o meu entendimento está correto. Não obstante a constatação, no momento, de vários assentos disponíveis, como "punição", o "sorteio aleatório" feito pelo sistema da companhia aérea, me colocou, tanto no primeiro, como no segundo trecho do vôo, na última fileira de assentos, em poltronas não reclináveis, próximo à"cozinha" do avião e com "vista" para o banheiro... 

  Absurda coincidência, não? E em dose dupla!... Comparo tal "sorte" à probabilidade de ganhar na loteria. Acredito, entretanto, que se eu cedesse, alterando os assentos, "coincidentemente", um próximo seria imediatamente "premiado" com os mesmos, e assim sucessivamente. Resolvei, então, deixar para lá... 

  Acontece que o lugar é tão desprestigiado que o casal de idosos, ao meu lado, imediatamente após se acomodar, deu um jeitinho de desaparecer lá para frente, não sei onde, pois não visualizei esses tais lugares. 

  Ao menos o vôo adiantou meia hora e às 22:30 estava em Guarulhos, ainda que, entre descer do avião, embarcar no ônibus e, finalmente, chegar ao saguão, tenha decorrido quase meia hora. 

  Era momento de comer duas de minhas indispensáveis maças, respirar fundo e procurar o melhor lugar para ficar, óbvio, que não me onerasse. Aliás, apenas por curiosidade, fui tentado a conhecer o tal hotel dentro do aeroporto, cujo preço, porém, de uma hora, era o valor de uma diária que paguei em Natal! Tô fora! 

  Entre rumar para a área de embarque a permanecer no saguão, escolhi, inicialmente, a segunda alternativa, já que, se não gostasse, poderia optar mais facilmente pela primeira, do que se procedesse da forma inversa. 

  Sorte, se é que seja essa a palavra, que logo encontrei a pessoa certa, no lugar certo, que me deu uma dica gratuita, porém muito valiosa. Acho até que seja a verdadeira recompensa para quem conseguiu chegar até esta parte da leitura, a título de dica para uma possível situação como a minha no aeroporto de Guarulhos, desde que seja aberto às dificuldades próprias a esse tipo de "aventura", a propósito, "um nada" perante verdadeiras vicissitudes da vida: um simpático rapaz, chamado Nicolas, me mostrou uma escada rolante próxima ao seu "stand" de acessórios para celulares e indicou que as imediações daquela "casa do pão de queijos", no andar superior, era bem tranqüila, pouco freqüentada e, dentre os assentos disponíveis, alguns eram geminados, possibilitando ao ocupante acomodar-se "mais confortavelmente", pois poderia deitar-se. 

  Realmente haviam poucas pessoas e vários assentos. Mas, os "superluxos", com três assentos sem apoio lateral entre eles, estavam ocupados. De qualquer forma, ao invés de um "standard", consegui um "luxo", de dois assentos sem barreira entre eles, mais uma mesinha ao lado, que o transformava em um "superluxo"... 

  Com uma mochila servindo de travesseiro e outra, menor, contendo os pertences de mão, "enroscada" no corpo, ali fiquei, entre celebrados espasmos de sono, até que fui definitivamente "despertado" por um autodenominado professor, que vendia livros de "prevenção ao suicídio", por "qualquer quantia" que a "vítima", digo, pessoa, pudesse contribuir. Não se foi o correto, mas, na circunstância, enquanto alguém estava sendo salvo pelo professor, optei por salvar da morte iminente o meu dinheiro, fingindo que estava dormindo... 

  Depois de toda essa "preparação", a última fileira do avião não mais incomodava nem um pouco, muito pelo contrário: a saudade de casa, o vôo rápido, a possibilidade de realizar um monte de coisas ainda naquele dia, me confirmaram a certeza de que fiz a melhor escolha, que, sinceramente, não desejo fazer de novo, mas farei tantas vezes quanto se mostrarem como melhor (e bem mais barata hehe) opção, com a inigualável vantagem de ter preenchido algumas páginas da minha história de uma forma que considero mais adequada do que se a tivesse deixado passar em branco. Afinal, as nuvens brancas que ora vejo lá fora, facilmente são vistas apenas como nuvens brancas. Entretanto, um pouco de esforço já torna possível, talvez, enxergar brancas nuvens... 

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Eu corri de Vitória a Linhares, ora bolhas!





        EU CORRI DE VITÓRIA A LINHARES, ORA BOLHAS! 

Sexta-feira, 12.10.2018, dia de Nossa Senhora Aparecida e dia das Crianças, por volta de 7:50, eu finalmente cheguei à histórica Praça 22 de Agosto em Linhares, agora, eu também, com a minha saga para contar. 

Embora tivesse em mente algo do tipo, há alguns anos, para uma distância um pouco maior, o certo é que a decisão quanto a correr de Vitória até Linhares, em cinco dias, com algumas escalas em locais específicos (em alguns momentos do percurso cheguei a pensar que deveria ser conexão, com a troca do "auto móvel") fora tomada há menos de um mês, sem tanto planejamento assim. 

Talvez se tivesse planejado um pouco mais, não teria sequer ido, já que não parecia fazer sentido alguém com condromalácia patelar, grau IV, nos dois joelhos, há cerca de uns dez anos, com recomendações de cirurgia e migração para outras atividades físicas, não só teimar em continuar correndo, como encarar aventura desta natureza! 

Porém, faço questão de ressaltar que não me considero um irresponsável por isso! 

Efetivamente, nos últimos anos, embora com a prática quase religiosa de manutenção da atividade física três dias por semana (segunda, quarta e sexta-feiras) reduzi carga dos treinos e das corridas (nunca mais fiz uma maratona, me limitando a pouquíssimas meias), com foco no aumento da flexibilidade e fortalecimento muscular, pratico pilates duas vezes por semana, além de me submeter, regularmente, a consultas médicas. 

O mais próximo do que fiz, recentemente, foram alguns treinos de Vitória a Praia Grande (cerca de 35 km), os quais, gradativamente, também foram diminuindo, encontrando-se, atualmente, no máximo, na casa dos 25 km. 

Dia 12.10, planejara com a esposa estar em Nova Venécia, onde passaríamos o final de semana. Estou de férias e, mesmo assim, é raro, para mim, em qualquer época do ano, a possibilidade de flexibilizar compromissos de segunda a sexta, como se mostrava possível entre o período de 08 a 12, este último dia, inclusive, dedicado à Nossa Senhora Aparecida (não poderia esquecer do ingrediente FÉ). Ora bolas, é possível! Quando terei outra oportunidade como essa? 

Dividi o percurso em cinco dias, saindo de Vitória em 08.10, até o município da Serra. Daí para Fundão, no dia 09 e, em seguida, para João Neiva, Aracruz e, finalmente, Linhares. Cerca de 130 kms, estrategicamente divididos de forma a nenhum percurso ser menor do que meia maratona (21.097,5 metros) ou superior a 30 kms, partindo sempre por volta de 5:00 horas. 

Como não dispunha de estafe (prefiro a "staff"), para me acompanhar durante o percurso, mesmo porque, a rigor, pretendia incomodar o menos possível qualquer pessoa além de mim mesmo, o primeiro desafio foi me preparar para a rotina "mochileira", selecionando o mínimo de roupas e objetos necessários, os mais leves possíveis, de forma que a mochila que me acompanharia nesses dias, alcançou a proeza de não ultrapassar muito dos três quilos... Pouco, mas, a rigor, um peso extra considerável! 

O primeiro dia, de Vitória até Serra, o menor e único dos trechos que já percorrera correndo, acreditava que seria o menos intranquilo, apesar das duas longas subidas próximo ao final. E assim foi! Sem muitos ressaltos, estava concluída essa etapa. Ufa, "só" falta 80%! 

O segundo dia já foi um pouco mais tenso! O acúmulo do desgaste do dia anterior, a distância um pouco maior, o sobe e desce do percurso, a indecisão sobre o momento e o que efetivamente consumir para manter o máximo de energia durante o trajeto,... Mas cheguei: 100 - 40! Resta 60%. 

No fundo, acho que esse foi o dia crucial! O que mais temia, o joelho, suportando bem! Estava tão preocupado e atencioso com o mesmo, que ele, parece que se sentindo tão "amado", resolveu me dar mostras de que não deveria me preocupar tanto, funcionando numa espécie de "automático", fluindo naturalmente a corrida quanto a tal engrenagem... 

Mas parece que causou ciúmes em outras "peças", pois ao final do percurso, senti as coxas "queimando", uma ligeira cãibra (aprendi que tanto cãibra quanto câimbra estão corretos, logo, tendo mais simpatia pela forma que ora utilizo, embora achasse, até então, que o correto fosse cãimbra) na panturrilha e lateral da sola do pé direito e, o maior detalhe, que, no momento, considerei o mais inofensivo de todos: uma pequeníssima bolha no dedão do pé direito. 

Não é porque não tinha um estafe me acompanhando e porque pretendia incomodar o mínimo possível que eu estava isolado na empreitada... 

O meu estafe, além de à distância, era pequeno, mas muito bom! Os pilares eram a esposa Claudia, um irmão em Linhares (o Tião) e um em Vitória (o Léo) e os fisioterapeutas do pilates Tiago e Victor Arnal. Omitindo quanto à bolha, pois a considerava ainda irrelevante, acionei os dois últimos, ressaltando quanto à minha disciplina de "bom aluno" no tocante aos alongamentos, gelo, massagens e descanso. Salientaram quanto à naturalidade do desgaste e frisaram sobre a importância dos isotônicos, visando à reposição de sais perdidos. 

Não gosto muito de isotônicos, praticamente não os utilizando nem quando faço corridas de longa distância. O que vinha tomando era água natural e de côco, mesmo assim em quantidade que após a recomendação, acreditei insuficiente. Obedeci e além de incrementar um pouco mais quanto a água e carboidratos, comprei duas garrafas de 500 ml de um daqueles famosos isotônicos, uma para o restante do dia e outra para o percurso da quarta-feira, entre Fundão e João Neiva: batata! O meu psicológico foi lá em cima com relação a causa e efeito. As cãibras não me preocuparam mais para o resto do percurso. 

Porém, as dores nas coxas estavam muito fortes, não diminuindo para um patamar razoavelmente suportável nem com a intensidade dos alongamentos específicos. E eu não poderia de forma alguma desistir! Aqui entra mais firmemente o Tião. Quando ele soube da empreitada, parecia que estava ali comigo a todo instante! Ficou mais efusivo do que eu. Enalteceu, me posicionando como se eu fosse "um ser brioso, firme e realizador de algo fantástico"; se colocou à disposição e transformou a minha recôndita aventura em um "evento", se comprometendo a ir me visitar no terceiro dia, em João Neiva, agilizar quanto a hotéis, me acompanhar no quinto e último dia, de bicicleta, entre a pamonharia de Aracruz até Linhares, inclusive, com outros corredores locais, além de preparar a recepção para o local que definiu como chegada, a emblemática Praça 22 de Agosto. 

Logo, embora extremamente conservador no que tange a medicamentos, para seguir no percurso, após me inteirar quanto às indicações e contra-indicações, ao fim do segundo dia entendi adequada a ingestão de um relaxante muscular. Dormi e parti para o terceiro dia da corrida, o qual não foi nada fácil, mas, também, não tão extraordinariamente difícil como prenunciava. 

Aliás, um corredor, todos bem sabemos, tem, cada qual, o seu ritual de motivação, durante o percurso: eu, por exemplo, rezo, reflito bastante, viajo na criatividade (grande parte desta narrativa, a propósito, foi "escrita" pela mente durante os trajetos), crio frases ou me lembro de outras, como "sem sacrifício não se chega a lugar algum", "retroceder nunca, render-se jamais", ou acorda cedo ou dorme no ponto, "dias de luta, dias de glória",... 

Chegando em João Neiva, onde fui saudado nos últimos quilômetros pelo irmão Tião, que registrou mediante fotografias e filmagens, ao retirar os tênis, percebi que agora, sim, eu tinha um problema, já que aquela bolha pequenininha se transformara num bolhão. Não doía, mas,... O que poderia acontecer dali por diante? 

Socorro, Claudia! Não é a toa que nós temos seis filhos! Você é extraordinária no que tange à criação, manutenção e expansão de força, fé e confiança! Preciso MUITO de você! 

Acho que nunca falei tanto com a Claudia pelo telefone! Vamos Luiz! Que tal procedermos desta forma, assim, assim e assim? 

Visitei umas cinco farmácias de João Neiva! O que considerei mais plausível foi furar a bolha com uma agulha esterilizada e depois fazer um curativo! Decidimos (eu e a Claudia), contudo, não furá-la logo! Para quê? Adquiri o necessário e deixei o procedimento para pouco antes da corrida, motivo pelo qual deveria acordar um pouco mais cedo (ainda!). 

Quando acordei, um fator determinante: percebi que a bolha murchara um pouco. "Ora bolhas", se em repouso ela murchou, acredito que mesmo que ela aumente um pouco de volume com a corrida, se bem protegida, não irá estourar (ou pocar, como dizemos, nós, capixabas!). Afinal, eu estava com tanta pena dela!... Não! Não liguei para a Cláudia às 4:00 da manhã! Decidi, "por minha conta e risco"! 

Sem deixar de estar plenamente ciente de que se uma bolha num pneu pode estragar uma viagem, uma simples bolha em um "PÉneu" pode ainda mais, sem a possibilidade, inclusive, de substituição por qualquer "PÉneu" sobressalente ou reparo em borracharia. No máximo, um valioso auxílio, mas não necessariamente resolutivo, em alguma "farmaçaria". 

De qualquer forma, passei a nutrir certo orgulho e carinho por aquela bolha! Tratei-a dignamente, como uma espécie de troféu! Não iria de forma alguma espetá-la! Iria me acompanhar até o fim! 

No quarto dia, entre João Neiva e a Pamonharia de Araruz, a mesma coisa! Murchinha na saída, firme, forte e vigorosa ao final! Ganhou até uma pequena companhia, no dedão do outro pé! Tive o cuidado de não deixar nada encostar nas mesmas, salvo uma, levemente, na outra, já que surgiram tão próximas, nas extremidades externas dos dois dedões dos pés, que parece que nasceram para se enamorar! 

A propósito, quanto às bolhas, pensei até um cultivá-las o máximo de tempo possível também para mostrá-la àqueles chatos que teimam em lhe zoar, tipo dizendo que lhe viu pegando carona, ônibus etc. Não que duvide que isso possa acontecer em certas ocasiões, embora jamais me sujeitasse a ser o protagonista de tão aviltante conduta. Afinal, eu mesmo, em uma certa meia maratona, que me lembro muito bem, passei o mesmo cara três vezes, sem que em nenhum momento ele tenha me ultrapassado. Como é possível? Mas, quer saber: às favas quem quiser ou não acreditar em mim! Ninguém precisa "me engolir", mas também não tenho que provar nada para ninguém! 

Faltava "só" o quinto dia! E "a festa"! Contudo, algumas "pequenas" situações acabam por aumentar os obstáculos. Por exemplo: em todas as pesquisas que fiz, a pamonharia ficava no Km 177. Qual não foi a surpresa ao avistá-la no km 179 (para constar: estava no sentido decrescente de quilometragem da BR 101 Norte) Se eram dois quilômetros a menos percorridos aqui (para os quais eu estava física e psicologicamente ambientado) significa que seriam dois a mais lá! Para piorar, o Tião me confirmou que conferira o percurso final e ele media exatos 30 kms. Ora, justo no último dia? 

Antes da narrativa quanto a tal percurso, já que estava em meu último ponto de parada, registre-se que me instalei em estabelecimentos que considerei adequados aos meus propósitos, inclusive no aspecto financeiro. Embora tenha percorrido, de carro, várias vezes, o mesmo trajeto, foi nesta oportunidade que pude conhecer e aproveitar mais amiúde do Hotel e Restaurante Casarão, em Fundão, do Hotel Bravo e Restaurante Casa Brasil, em João Neiva e da Pousada e Restaurante Pamonharia da Roça, em Aracruz. 

Aliás, não somente no tocante aos estabelecimentos!... Cada uma daquelas plaquinhas azuis, ao longo da estrada, indicadoras dos quilômetros, foram muito bem visualizadas por mim e registradas, para sempre, em minha memória. No início fiquei um pouco contrariado, pois essa história de que "de grão em grão a galinha enche o papo" não me apetece muito. Preferia marcações mais longas para não ter que ir diminuindo de um em um os quilômetros restantes. Mas, paciência né!? 

O certo é que em cinco dias, com tudo que a modernidade, hoje, nos proporciona, poderia ter dado a volta ao mundo. Mas eu nunca saí sequer do país e, salvo situação inevitável, não tenho a mínima vontade de fazê-lo. E não é só por aspectos financeiros, diga-se de passagem, mas por ausência de vontade mesmo! Mas posso dizer, agora, que conheço muito bem cada metro da estrada que vai do Município de Vitória até o de Linhares. 

Até os cachorros que existem na estrada conheço melhor e eles a mim! Como, infelizmente, não tivemos o prazer de sermos apresentados, tive que adotar minha estratégia de "enfrentamento", ao virem latindo em minha direção, a qual consiste, basicamente, em não demonstrar medo, não recuar, seguindo em frente, mandando-os, energicamente, plantar batatas ou fazer outra coisa que não me morder, o que tem dado certo até hoje, ao menos com relação aos "dóceis" cães que encontrei pelo caminho, embora não possa dizer ou afiançar que essa seja uma recomendação válida para outros. 

Enfim, apesar dos mais de trinta anos de corrida amadora, nunca aprendi tanto como nesses cinco dias em que ao final de cada trajeto estava sempre exausto, com o restante do dia para estar pronto para o outro, de qualquer jeito! 

E assim parti para o último trecho do percurso! Onde contei com o acompanhamento do Tião e do Ronald, de bicicleta, além do Cedenir, do Eduardo e do Cândido, de PÉneus, como eu! E também a Eliana e o Lúcio, de carro, fornecendo suporte para a "equipe"! 

Confesso que preferia contar com os mesmos em forma de revezamento no trecho final! Mas como isso não era o previsto, esforcei-me (e tenho certeza de que eles mais ainda) para fazermos da "penosa" atividade algo que fosse realmente marcante! Eu mesmo abri mão de parte das conversas que mantenho com os "anjos e santos", para alguns rápidos diálogos de força, motivação e conhecimento. 

Assim fomos, um se esforçando para manter ritmo que fosse possível ao outro, até o final ("principalmente" eu, hehe!), diminuindo a distância que nos separava do ponto de chegada. 

Saímos por volta de 5:00, como de costume. Minha esposa e nossos dois filhos menores, de carro, saíram de Vitória, também no mesmo horário. Acreditava que eles nos alcançariam próximo ao distrito de Bebedouro, quando teríamos percorrido pouco mais de 20 quilômetros do trajeto. E foi o que ocorreu! 

Quando ouvi aquele conhecido buzinaço de um veículo só, sabia que eram eles. Pararam pouco à frente para nos filmar e fotografar correndo! Embora não conseguisse uma expressão facial que disfarçasse muito o cansaço, ao menos imprimi passo mais acelerado para "sair bem na fita"! Passei por eles e pedi que me esperassem no trevo de Bebedouro (sugestivo esse nome em se tratando de uma corrida, né!?), quando segui alguns metros na companhia também dos pequenos, pedindo aos mesmos "para maneirar", já que não estavam nas famosas maratoninhas ou garotadas da vida! 

Já em companhia somente dos "grandes", foi assim que dividindo água natural, de côco, barras de cereais, isotônicos e sachês de mel, fomos nos aproximando do final. Sensação indescritível ia me invadindo cada vez mais fortemente. Era uma espécie de muita alegria pela conclusão e, ao mesmo tempo, no momento, já de pequena saudade, pois, no outro dia, já não mais me submeteria à dura e doce rotina dos últimos cinco dias, a qual tinha certeza de que me marcaria para sempre. 

Já pensando em algum novo desafio, quem sabe daqui há uns quinze anos (o que me veio à mente, primeiramente - mas até lá pode mudar, inclusive , quem sabe, não necessariamente sozinho, ficando, desde logo, expressa tal possibilidade - foi a ideia de partir para uma corrida sem limite de quilometragem, até onde a resistência permitir, evidentemente, mais preparado física e mentalmente, além de dotado de estrutura que possibilite ao corpo diminuir os efeitos do desgaste natural do avanço da quilometragem), foi assim que pouco antes das oito horas, exausto, eu e "minha equipe", novamente com os meus dois filhos do lado, chegamos ao portal da Praça 22 de Agosto em Linhares. Não sou nenhum "Forrest Gump", mas, enfim, estava concluída a minha jornada, esta pequena história! 

Mas, e O EXAURIMENTO

Pouco depois da "escala em Linhares", segui, porém de carro, ao lado da esposa e filhos para Nova Venécia. 

Não contara para ninguém! Mas, como tenho alguns amigos corredores no Município, passei a cogitar quanto à possibilidade de uma corridinha no outro dia, ou seja, no sábado. Seria cerca de "apenas" uns doze quilômetros, do centro até o Distrito de Santo Isidoro (ou João Pião) onde o Daniel e a Marta, irmão e cunhada da minha esposa, possuem uma área rural. 

Durante o trajeto, comentei com a minha esposa, que não se opôs! Após o almoço, uma "feijoadinha" (ninguém é de ferro!) feita pela sogra e antes do descanso, liguei para o Uberacy, companheiro de longa data e grande propagador das corridas de rua, no município, e para o Lélio Marcarini, com quem também já fiz alguns treinos, sondando quanto ao propósito. 

Nenhum dos dois poderia me acompanhar: o primeiro devido a impossibilidade física momentânea e o segundo porque viajaria para Vitória. 

Mesmo assim fui! Sem a mesma pressão dos dias anteriores, entretanto, com a responsabilidade de um bom treino, num percurso que embora curto, possuía uma subida que acredito mais íngreme do que qualquer outra existente entre os municípios de Vitória a Linhares. Além dos cachorros, claro! 

Foi cansativo, mas bem legal! 

Porque fiz isso? Não sei! Acredito que apenas para diferenciar conclusão de exaurimento! Ao chegar a Linhares, exausto, tinha concluído o meu intento. Mas, agora, estava realmente exaurido... 

Domingo cedo, dia de retornar para Vitória. Não era possível "inventar" mais algo, tipo um "post factum",... 

Registre-se, portanto, para finalizar, que nenhuma outra surpresa ocorreu. Apenas, quando cruzei, de automóvel, a ponte sobre o Rio Doce e comecei a fazer o caminho de volta, que fizera com os meus "PÉneus", avistando, a seguir, a primeira plaquinha azul, senti uma emoção indescritível, saboreando, de forma incrível, cada metro daquela estrada que jamais será a mesma para mim. 

Fiz questão de parar com esposa e filhos, rapidamente, nos locais onde me hospedei. Segui revivendo e contando para os mesmos vários detalhes desta minha história, ora, resumidamente descrita, tendo certeza de que terão a exata noção de como sou grato a Deus pela oportunidade. Amém! 


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Cinco horas e meias

                                                      
CINCO HORAS E MEIAS 

Estou de férias. E férias é período de descanso, não é mesmo? 

Pois bem, no meu caso, o principal descanso que necessito é da mente e, embora para muitos possa parecer estranho, o modo que mais consigo "repousá-la" é quase esgotando o corpo com a prática de corridas. Doido, né!? Vá entender! 

A propósito, como necessito especialmente da compreensão da minha família, enquanto apenas acho que ela me entende, tenho certeza de que ela me aceita e apóia, sendo isto fundamental para seguir por tantos anos desta forma. 

Certo é que o momento se mostra adequado para pôr em prática um projeto que tenho em mente há alguns anos, embora não possa ser na distância que planejara. Daí que hoje, segunda-feira, dia 08.10, iniciei, saindo de casa, em Vitória, com chegada em frente ao Ministério Público da Serra, num percurso de cerca de 22 km. 

Amanhã, terça, a meta é da Serra a Fundão, até as imediações do km 229, o que resulta em cerca de 27 kms; na quarta, até o km 203, em João Neiva; na quinta, até a pamonharia da roça, em aracruz, km 177. E na sexta, dia de Nossa Senhora Aparecida, até Linhares, com ponto de chegada ainda a ser definido, mas, por volta do km 150. Logo, o total do percurso é de cerca de 130 km, que dividido por cinco dias dá uma média de 26 km diários. 

Pouquíssimas pessoas sabiam disso por dois motivos: 1) é algo muito pessoal! 2) Sinceramente, embora já tenha algumas maratonas no currículo, tinha e ainda tenho muitas dúvidas se conseguirei chegar ao final, especialmente devido a algumas "reclamações" dos joelhos, tendo ouvido "gritos" dos mesmos já quando souberam o que eu pretendia fazer nestes cinco dias seguidos, pois, há alguns anos, forçosamente, tive que reduzir a carga de treinos, inserir atividades de pilates, dentre outras formas de adaptação, para continuar com a prática desportiva. 

Ah, o título! Porque cinco horas e meias? Cinco horas (ou um pouquinho antes) é o horário que rotineiramente faço as minhas corridas, nestes mais de trinta anos dedicados às atividades. Não abro mão (e nem a rotina puxada me concederia a oportunidade de alterar o horário) e, realmente, me sinto privilegiado em acordar cedo, assistir aos partos diários do sol, quando a lua lhe entrega o bastão para continuar essa ininterrupta maratona de revezamento. Já meias é a referência que faço às meias maratonas, tendo em vista que em nenhum dia a distância a ser percorrida será menor do que 21.097,5 metros, aliás, o que seria ótimo, pois, ao invés de cerca de 130 km, cairia para algo em torno de 105 km. 

Mas não coincidiriam os pontos de parada e nem o local de chegada, o município de Linhares. A propósito, oriento aos que ainda não sabem, que procurem se inteirar porque a distância de uma maratona é de exatos 42.195 metros. Guardadas as proporções, no meu caso, é como se mudasse a distância da meia maratona, mas jamais o ponto de chegada, que é Linhares! 

E porque torno pública a aventura, ainda no primeiro dia, quando foi percorrido menos de 1/5 do percurso, quando todas as incertezas batem à porta? É que o meu irmão, Tião, que mora em Linhares, foi um dos poucos a saberem do meu intento e, expansivo como só, cuidou em "chutar o pau da baraca", transformando a minha recôndita corrida em um "evento" para o qual outros "malucos", "maluquinhos" e "malucões", ao que me foi informado, pensam em estar comigo no último trecho ou em parte dele. 

Era tudo o que eu não queria! Pois, agora, além da minha imensurável vontade, surgiu compromisso! E não vejo como "correr" dele! 

Enfim, quando a intenção é boa, sempre restará, independentemente de qual seja o final dela, uma boa história para contar! 

E que seja feita a Vossa vontade, amém! 

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Andando na Frente - Parte 4


ANDANDO NA FRENTE – PARTE 4 

  Hoje é dia 01.10.2018. A LIZ completa 10 anos! 

  Quem leu “andando na frente – partes 1, 2 e 3”, sabe bem qual o presente que tanto me alegra em dar para meus filhos quando alcançam esta idade (bem baratinho, hehe!). Aliás, a rigor, não sou eu quem dou; apenas, enquanto pai (com a coautoria da mãe), permito, já que assim disciplina as normas de trânsito: o direito de andar no banco da frente do carro! 

  - E isso lá é presente? Pobre filha... 

  Tudo bem que no sábado já ganhou uma festinha! Porém, ainda mais quando as coisas acontecem na época própria, é inegável que esse direito proporciona grande alegria à criança, quando o alcança. Tanto que, geralmente, insistem em obtê-lo antes! 

  Entretanto, é verdade que tendo os irmãos mais velhos já passado “pelos mesmos bancos”, não tivemos dificuldades para a Liz também assimilar de forma natural a espera. 

  Coisa simples, mas que alegra bastante, como deu mostras quando eu e a Laís, às 5:00 horas, no aeroporto, fomos recepcionados por ela e pela mãe. 

  A propósito, a mãe já tinha me informado que não era intenção levá-la, pois era muito cedo. Que nada! Separara a roupa, fora dormir cedo e pedira para não deixar de acordá-la de jeito nenhum! 

  Logo, a honra foi toda dela: O BANCO DA FRENTE! Como será durante os demais trajetos do dia, para, amanhã, tudo retornar ao normal quanto aos bancos dianteiros: os pais, usualmente, e os filhos mais velhos com primazia sobre os mais novos, não descartando-se eventuais rodízios ou outras formas que não partam da desarmonia. 

  Acreditamos, portanto, que o valor das coisas depende muito de como se dá e de como se recebe. O dia especial é hoje! O "presente" também é para hoje! Nele está contido o maior carinho, consideração, respeito e ensinamento. Não custou nada! "Apenas" a cumplicidade conquistada ao longo dos anos, inclusive, naturalmente, da própria homenageada. 

  Daqui a dois anos, com data agendada mais precisamente para o dia 05.11.2020, nos vemos de novo, na sequência do "andando na frente", agora na parte 5, mudando apenas o ator principal, o qual, inclusive, já está confirmado, mediante, óbvio, o mesmo "cachê"! 

  Até lá, se Deus quiser! 

quarta-feira, 5 de setembro de 2018



No exato momento em que o seu filho está nascendo, o pai pode estar fazendo qualquer coisa, enquanto a mãe,...  Como não somos e nunca seremos iguais, o meu verdadeiro receio não é a ruidosa propagação da ideia, mas a sua indiferença quanto ao sacrifício das marcantes diferenças!

quinta-feira, 2 de agosto de 2018



A história tem demonstrado que apenas um homem ou uma só mulher são capazes de deixar um grande legado para a humanidade. Porém, só os pais são capazes de legar a humanidade



quarta-feira, 4 de julho de 2018

Neymar: Protagonismo e Destino




NEYMAR: PROTAGONISMO E DESTINO! 

  Em tempos de copa e já que o mundo inteiro parece ter necessidade de falar qualquer coisa sobre o Neymar, ainda mais depois que o Cristiano Ronaldo e o Messi já se despediram da mesma, também vou na onda. 

  E desde logo declaro a minha parcialidade: não obstante adira a várias críticas no tocante à sua conduta dentro de campo, sou um fã declarado do seu futebol, como fiz questão de deixar registrado neste blogue, com a crônica “Neymar o melhor do mundo!”, logo após aquele jogaço em 08.03.2017, pela liga dos campeões, entre o Barcelona e o PSG, quando o seu então time, que perdera a primeira partida por 4 a 0, vencendo a segunda por 3 a 1 até os 42 minutos do segundo tempo, necessitava de mais três... E, incrivelmente, conseguiu: 6 a 1! Acho até que foi devido a esse jogo e especialmente após lerem o que escrevi – vale a pena, tá!?[1] - que o time francês decidiu comprá-lo junto ao espanhol. 

  Sinceramente, espero que você não tenha esquecido como foi ou pelo menos esteja tentado a recordar ou mesmo buscar se inteirar como foi que ocorreu, já que naquela oportunidade se consumou a consagração do jogador como melhor do mundo! Quer queiram, quer não; quer reconheçam, quer não! 

  E não é a condição de NEYMARRA, que parece impregnada à sua personalidade, que pode ofuscar essa então condição de REYMAR, embora de duração muito mais efêmera, dado à concorrência e rápida finitude da carreira de jogador! 

  Fato é que devido ao jeito envolvente, alegre, atrevido e moleque (sei que você tem mais um monte de adjetivos), muitas vezes ele é “condenado” pela “contribuição” que teve para receber, por exemplo, uma falta nítida. Ou, então, pelo “teatro” que fez após recebê-la,... E por aí vai... 

  A propósito, agora existem os chamados “árbitros de vídeo”. Mas como, mesmo assim, também há o amplo espaço da interpretação,... 

  Enfim, no momento, o Brasil está nas quartas-de-final e enfrentará um time excelente, a Bélgica, vindo, a seguir, caso ultrapasse esse duro adversário, outro não menos gabaritado, Uruguai ou França, para, então, se chegar até tal momento, decidir com alguma equipe europeia do outro lado da chave, podendo ser Croácia, Rússia, Suécia ou Inglaterra. 

  Tudo pode acontecer! Aliás, o próprio Brasil, felizmente, já diminuiu a dependência com relação a Neymar, havendo espaço para protagonismo de outros jogadores, como, aliás, já ocorreu em outros jogos nesta própria copa. 

  Mas, por favor, que ninguém se esqueça que falta é falta, independentemente de quem a receba. Para o bem do futebol. 

  Não é porque o Neymar sobreviveu que devemos esquecer da Zunigada que o retirou da copa, quatro anos antes (lembra? Exatamente em uma quartas-de-final!). Aliás, aquele TRÁGICO momento só foi a consumação de uma nítida complacência com vários outros episódios que o antecederam. Condescendência que também se deu logo depois e continua a ocorrer na presente copa, quatro anos depois. 

  Aliás, embora acompanhe com interesse o futebol local e internacional, por óbvia ironia, nunca antes e nem depois ouvi falar e nem tenho interesse em saber por onde anda o obscuro artífice da Zunigada. 

  Já o Neymar, Reymar, Neymarra, ou seja qual for a alcunha dentre a vasta lista que lhe cabe, protagonista do nosso primeiro e único ouro olímpico no futebol, dentre outros grandes feitos de sua ainda curta carreira, segue a trajetória daqueles raros jogadores fadados ao papel principal para enfrentamento dos variados expedientes que os mais renomados adversários possam se valer no exercício do seu dinâmico princípio da ampla defesa... Especialmente quando atacamos! 

  É bom escrever sobre fatos que possam ocorrer hoje, amanhã, depois... Daqui há quatro ou oito anos. Ou simplesmente nem ocorrer, pois, absolutamente ninguém sabe! Mas que ao menos evitem fazer tanta falta no que se chama destino... 


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[1] Assim como, na mesma linha futebolística: “roubaram a copa”, de 16.05.2014 e “a seleição brasileira” de 29.07.2014



Meu voto é no robô




MEU VOTO É NO ROBÔ 

  Em Congresso Nacional do Ministério Público, em 2003, defendendo tese que ao final foi aprovada, abordei quanto à omissão dos agentes políticos em zelar pelo cumprimento de dispositivo constitucional de proteção em face da automação, o que um dia poderia também alcançá-los. 

  Embora o assunto ainda não fosse tão marcante quanto hoje, uma década e meia depois, discorri, à época, que a indústria da automação não estava disposta a voltar suas propostas para substituir inclusive os agentes políticos mais por necessidade de cooptação do que por espírito tecnológico-científico/econômico financeiro. 

  Firmes na acepção de que o mundo será sempre melhor se houver mais de “nós” e menos “deles”, nos despreocupamos quando, de forma concreta, “eles” foram lançados às favas, já que, nesse período, acompanhamos centenárias profissões minguarem ou sucumbirem, a pretexto de que isso auxiliaria “eles” a se transformarem em “nós”, com a humanidade livre de trabalhos repetitivos, deslocando seu tempo para atividades mais prazerosas da vida. 

  De lá para cá, com os vazios deixados em razão da obsessão pela ocupação dos espaços “deles” e cada vez mais perigosamente perto dos “nossos”, tornou-se impossível a manutenção da sutileza kafkiana original, de forma que arrastou-se, então, para o convencimento de que o mundo atual é “inteligente” e cada vez mais assim o será, contudo, se fazendo necessário que bem antes de “nós” e mais ainda “deles”, haja muito mais “disso”, que, aliás, você vê em toda parte, portanto,... 

 Diariamente confrontados com nossas diferenças e limites em imperfeições e inteligências, com a massificação de robôs que já “nascem”, a cada dia que passa, muito melhores” (e bem mais baratos!), é dessa forma que assistimos à desvalorização do trabalho humano, na linha da filosofia tipo “nade ou afunde”, como adverte Zygmunt Bauman, em “Vidas Desperdiçadas”: “o prêmio que você pode esperar, de forma realística, é trabalhar por obter um hoje diferente, não um amanhã melhor. O futuro está além do seu alcance (...). Preocupações de longo prazo são para os crédulos e imprevidentes” (p.132). 

  Premissa básica dessa engrenagem é a de que você é peça sempre defasada, vale bem menos do que custa, além de facilmente substituível! Daí a importância da manutenção de um exército de desempregados à espreita, crises que possam diminuir as expectativas e facilitar reformulações, além, óbvio, do seu desprestígio íntimo e social, inserido ou próximo do crescente rol de ocupante de tarefas “descartáveis”, objetivando, no fundo, facilitar a assimilação de sua troca por um robô. 
  
  Como essa tônica de “crescimento sem emprego” embala fortemente o poder econômico, aliado extremo do poder político, no fundo, enquanto as alterações se agigantam, os estados se apequenam, porém, como não poderia ser diferente, mediante enorme pompa e simbolismo aos seus atos de mera chancela e submissão. 

  Se a Constituição Federal, há 30 anos, ao dispor sobre a ordem social, estabeleceu que a mesma “tem como base o primado do trabalho, e como objetivo o bem-estar e a justiça sociais” e essa primazia, atualmente, se encontra tão relativizada, obviamente, não se pode esperar algo muito diferente da triste realidade brasileira, com seu quadro de milhões de desempregados e indiferente súdita da robotização como fim em si mesma. 

  Como previa, é chegada a hora dos agentes políticos: a par de tudo isso, as cidades estão tão inteligentes que já merecem governos eletrônicos. Logo, meu voto é no robô! 




quarta-feira, 9 de maio de 2018

Vida mais barata!




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VIDA MAIS BARATA!

  Aproveitando-me da experiência adquirida através da não tão pacífica convivência com aquele saudável brinquedo infantil, costumo dizer que não se resolve nenhum quebra-cabeça descartando peças, mas encontrando a maneira correta de encaixá-las.

  Logo, para resumir e ir direito ao assunto, eu não me conformo que exista tanta gente sem emprego e o mundo projete o seu futuro baseado no descarte de ainda mais gente para a acomodação de robôs! 

  Sei! Possivelmente não tiveram a experiência do quebra-cabeça e, ainda por cima, os robôs, de fato, são bem mais inteligentes do que eu... Bolas!!!

  Confesso que diante dessa irrefutável constatação até que tentei convencer a esposa a tentarmos um robozinho... Mas só conseguimos, um após outro e outro e outro e outro e outro... Filhinhos! Logo,... 

  Calma! Ainda me resta a alma! Se eu a tenho, com certeza, consigo provar que eles (ao menos por enquanto, penso!) são uns desalmados...

  Contudo, como isso não é tão simples de demonstrar, dado os artifícios dos artífices da artificialidade, que repetem repetitivamente repetitivos refrões refratários ao refrigério refrescante refreador das refregas diárias, prefiro, por ora, mudar de assunto: vou falar de baratas.

  Consta que existem há milhões de anos e apesar de consideradas responsáveis pela transmissão de várias doenças, tem espécies que além de fazerem parte da cadeia alimentar do próprio ecossistema em que vivem, também são apreciadas como iguarias humanas, afora o seu uso medicamentoso.

  Infelizmente, na minha casa, se qualquer delas tiver o azar de aparecer, antes mesmo de procurar saber se a infeliz é do bem ou do mal, é considerada “barata non grata”, especialmente pelas habitantes do sexo feminino, sabe-se lá por que!

  O fato é realmente para lamentar, visto que ao proceder à rotineira leitura de periódico jornalístico, no espaço destinado à ciência e tecnologia (poderia também ser na de economia), me deparei com matéria informando que uma fábrica localizada na cidade de Xichang, se destaca, dentre várias outras, na China, dedicadas à mesma finalidade, qual seja, a criação de baratas, cuja produção dessa prodigiosa empresa ultrapassa seis bilhões de unidades, anualmente!

  Tudo isso num prédio de dois andares, ou seja, poucos metros quadrados para a concretização desse verdadeiro “barato”, entretanto, amparado por um sistema de inteligência artificial voltado para lhes proporcionar todas as “regalias” para se reproduzirem freneticamente e alcançarem o melhor desenvolvimento possível. 

  “De quebra”, por contribuírem para a desestigmatização desse insetinho tão ultrajado, pesquisando um pouco mais sobre o assunto, encontrei que a tal fábrica “ já arrecadou cerca de 700 milhões de dólares com a venda de medicamentos produzidos a partir de baratas esmagadas. Segundo os fabricantes, o resultado é uma espécie de chá (argh!) levemente adocicado com um aroma que lembra peixe. Sua ação combate, principalmente, problemas gástricos e respiratórios, e o governo(?) diz que mais de 40 milhões de pacientes foram curados graças a sua fórmula.” (https://www.tecmundo.com.br/mercado/129759-fabrica-chinesa-cria-6-bilhoes-baratas-por-ano.htm).

  Detalhes que naturalmente me chamam a atenção é a ressalva no sentido de que o edifício é selado e raramente humanos podem entrar, ficando por conta dos computadores o controle do nível de temperatura, umidade, comida e água do local, bem como no tocante ao “custo muito mais baixo que o de outros medicamentos que combatem os mesmos sintomas”, levando o “soro de barata”, por consequência, “a ganhar cada vez mais força no mercado chinês”.

  Juntando uma coisa com outra, portanto, fico a imaginar o quanto damos voltas para encontrar justificativas que convençam os outros quanto aos nobres motivos da economia para encontrar alternativas barateadoras, especialmente da mão de obra humana, visando mais facilmente impingir os seus produtos, quaisquer que sejam eles, sempre a pretexto de ratear (não disse, ainda, ratar) uma vida mais barata para todos.

  A propósito, é bem possível que no novo quadro oficial de ocupações, para fazer frente às centenárias que vão sucumbindo ante à tecnologia, surja a de “caçador de barata”. Formalmente, é óbvio, pois, na informalidade, a partir da divulgação do exemplo chinês, por certo, já há muita gente “empreendendo” atrás.


quarta-feira, 7 de março de 2018

Terapia de ex-casal



TERAPIA DE EX-CASAL 

  Para que se possa tentar proporcionar o máximo proveito em disputa envolvendo ex-casal para sempre perpetuado sob forma do mais perfeito e exclusivo vínculo genealógico decorrente, ao longo da história simplesmente denominado de FILHO, o direito moderno expressamente estabeleceu o caminho da “solução consensual das controvérsias”, a ser estimulada por todos aqueles que de alguma forma se envolvem com a dinâmica judicial pertinente. 

  De acordo com a lei, durante vigência de uma sociedade conjugal, a direção dos filhos menores incumbe ao casal, em regime de colaboração. Ocorre que se estão perante o âmbito judicial para disciplinar sobre o assunto, significa que a sociedade, caso tenha existido, foi ou está para ser desfeita. 

  Quando conseguem equacionar a situação sozinhos, ainda que fazendo-se necessária a chancela judicial, optam por apresentar uma proposta consensual, para a homologação, o que, geralmente, não acarreta dificuldades. 

  Contudo, quando há divergências é que a situação tende a maiores dramas, não obstante, todos os casos devam ser tratados sempre sob o prisma da incessante busca da contemporização. 

 Aqueles intrigantes minutos que costumam durar uma audiência de conciliação, geralmente, é o primeiro momento - e pode ser o último – que as partes estarão diante de pessoas revestidas da autoridade conferida pelo Estado para interferir significativamente em suas situações familiares que deveriam, a todo custo, serem resolvidas de forma caseira. 

  Bom senso e razoabilidade são as chaves para o sucesso de uma conciliação. Entretanto, como o âmbito familiar é repleto de questões sensíveis, caso as partes resolvam levar e fazer uso de suas munições, especialmente conhecendo os pontos vulneráveis do alvo à sua frente, a necessidade de contenção é algo que além de trabalhoso, milita contra o objetivo principal da audiência. 

  Penso que seja proibido adentrar em uma audiência de conciliação com o espírito armado. Porém, como nenhuma revista consegue impedir que tal aconteça, por vezes, se chega armado até os dentes, oportunidade em que todas as energias devem ser utilizadas para o desarme, mesmo porque, em tais situações, embora o alvo costume ser específico, frequentemente, a munição acaba atingindo mais grave e seriamente justamente o fruto comum de ambos, o qual, aliás, é aquele a quem todos devem tratar com absoluta prioridade na questão. 

  É por isso que estou plenamente convencido de que, não obstante a responsabilidade de todos aqueles que de uma forma ou de outra estejam envolvidos com esse tipo de demanda, assim como muitas uniões se submetem à chamada terapia de casal, urge que se analise se, de fato, não seria o caso de dinamizar, também, a terapia de ex-casais, para o bem de seus permanentes frutos, os seus filhos, até porque, quando as divergências impedem de enxergar o valor da ponderação entre eles, é muito grande a possibilidade dos rebentos virem a necessitar de tratamento para terem condições de sobreviverem em meio a seus pais.


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Zona de Conforto


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ZONA DE CONFORTO

  Tornou-se bastante comum ouvir essa referência quando se quer dizer que alguém necessita mudar algo que já está assimilado ao seu comportamento, aliás, não por mera coincidência, numa época em que tudo se mostra tresloucadamente rápido e instável para possibilitar que não estejamos constantemente ansiosos, inovando, assumindo mais riscos,...

  Temo é que essa disseminação, a pretexto de estimular as pessoas a expandirem seus horizontes, seja muito mais voltada para diminuir o espaço de tempo em que elas possam se sentir confortáveis, porém, como se efetivamente necessitassem estar sempre à procura de algo novo, mascarando, sagazmente, no fundo, a sua subjugação à ditadura da inovação.

  Todos nascemos para batalharmos pela nossa zona de conforto, o que, obviamente, não se confunde com zona de acomodação. Posso estar, perfeitamente, em zona de conforto, sem estar acomodado, da mesma forma que posso estar acomodado e fora de zona de conforto. 

  Óbvio que essa explanação não tem o rigor técnico exigível para uma definição do que venha a ser zona de conforto. Porém, no fundo, é dessa forma que capturo as mensagens do cotidiano, de forma geral.

  Em minha área de atuação, por exemplo, o aumento das intervenções formais em contendas, dificilmente deixará de estar no alto dos indicadores positivos. Porém, tenho a firme convicção de que devo atuar de forma que as contendas diminuam sequer aparecendo, sem que, necessariamente, não esteja batalhando e eventualmente melhor alcançando os objetivos, já que o maior instrumento de aferição de um agente político, acredito, é a sua capacidade de obtenção dos resultados que o seu cargo lhe destina, em seu âmbito de atuação, por si ou através das necessárias interfaces com as instâncias afetas.

  Fato é que, depois de treze anos em área mais diretamente afeta ao idoso e às pessoas com deficiência, migro, agora, para a família! A propósito, para mim, um desafio ainda maior, já que a família congrega e é muito mais que qualquer dos seus membros: o idoso, a pessoa com deficiência, a criança, o adolescente, a mulher, o homem,... E as demandas quando chegam a uma Vara de Família, comumente, ocorrem quando essa insubstituível Instituição social já praticamente nem mais existe, portanto, o local, com o perdão da palavra, se assemelhando mais a uma Vara “Desfamília”.

  Logo, é óbvio que as demandas e as pessoas envolvidas serão tratadas com a máxima dedicação inerente ao cargo e como manda a lei. Porém, entendo que o meu maior papel enquanto agente político com atuação perante Vara de Família, quase uma utopia perante a fama alcançada pelos números nos tempos modernos, é velar para que as demandas diminuam sem sequer aparecerem, o que, obviamente, não permitirá qualquer tipo de acomodação, oxalá, amanhã, fazendo transparecer que me encontro em zona de conforto, aliás, onde sempre me encontrarei por dois essenciais motivos:

1) Se eu passar por uma rua em vez de outra, apenas um detalhe, tudo poderá ser diferente na minha vida. Só não pode ser diferente a vontade de pavimentar, da melhor maneira possível, a estrada, qualquer que ela seja;


2) A minha maior zona de conforto está em casa: esposa e nossos seis filhos, que, a propósito, embora gerem a maior satisfação, por óbvio, nunca permitiram ou permitirão assimilar acomodação à minha vida, felizmente!


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Reforma da Prev(s)idência


REFORMA DA PREV(S)IDÊNCIA

  Uns mais longe, outros bem mais próximos da “linha de chegada”, os “participantes” se veem bombardeados com rotineiras e desencontradas informações sobre o aumento do percurso, bem como da mudança na premiação pela conclusão da jornada.
 
  Não fizeram as regras, não lhes é possível alterá-las! Simplesmente aderiram e cumprem desde o início a sua parte quanto às mesmas, porém, além de se submeterem à confusão da “organização”, que conta, inclusive, com muitos membros que trilharam caminho bem mais curto, estrategicamente, são lançados uns contra os outros, a partir da inegociável premissa de desvalorização global do trabalho humano.

 Para o qual, aliás, diversamente de um histórico de lastimável condescendência com práticas perdulárias diuturnamente denunciadas no âmbito público, não há mínima eiva de compaixão, apenas o fácil discurso de austeridade, ao desumanizado gosto e exigência da inflexível política econômica mundial, mediante as estruturas de poder que lhe orientam.

  Sob tal ótica, os países não mais se destinam a atender ao seu povo, mas, primeiramente, aos grandes investidores, conduzindo o mundo a uma espécie de “cassino global”, onde as “apostas” se dão de acordo com os ambientes que proporcionem mais espaço, incentivos, segurança e retorno financeiro, a permanecer sempre atraente, visando não perder para outro refém concorrente!

  Tímidas as iniciativas que ousem contrariar esse ciclo, embora a crise não advenha do trabalho, muito pelo contrário, a par de adaptá-lo a esse novo, surreal e permanente cenário, recai sobre as suas consolidadas regras, agora sim, o mais implacável combate, mediante rápidas, sucessivas e profundas reformas, atendendo a uma irrefreável e matreira lógica de generalizado aumento da qualificação/diminuição da remuneração.

  Não obstante a paternidade/maternidade pela absurda situação de desemprego a que chegou o país esteja incorporada ao dna dos sucessivos gestores responsáveis por gerir e manter o nível de emprego no país, enquanto invariavelmente invocam a negativa de autoria quanto aos feiíssimos frutos deixados, agem e argumentam cada vez mais amarga e soltamente... 

  Diminuída duramente as expectativas no âmbito privado, resta consolidar o mesmo caminho quanto ao público, sempre a pretexto de pseuda promoção dos pobres, como aponta, por exemplo, estudo denominado “um ajuste justo – proposta para aumentar eficiência e equidade do gasto público no Brasil”, curiosamente encomendado pelo governo a um banco global e que traz, dentre outras com apelativo potencial de viralizar, proposta que inova quanto a mensalidades em universidades públicas, aliás, justamente após as mesmas passarem por longo processo que culminou com absorção de transformadoras cotas sociais e raciais.

  Enfim, no fundo, um bom parâmetro para auxiliar a formar ideia quanto a qualquer política pública que esteja em discussão é quem mais claramente se beneficia com suas alterações. No caso da reforma da previdência, não se tenha dúvida de que é a previdência privada. 

  Portanto, não parece justo que o servidor público, especialmente aquele que faz a sua história desde quando mega interesses privados ainda não estavam tão próximos das decisões republicanas, mediante campanha publicitária, de forma onerosa aos cofres públicos, seja satanizado como causador das agruras pelas quais, em mais esse aspecto, lamentavelmente, passa o povo brasileiro, à falta de uma verdadeira, necessária e inadiável reforma da presidência.


sábado, 11 de novembro de 2017

Todos de pé (se der, porém, ainda recomendo ler sentado)!


TODOS DE PÉ (se der, porém, ainda recomendo ler sentado)!


Não sei exatamente porque em algumas situações todos devem desistir de eventuais outras posições em que se encontram para quedarem-se de pé! 

Porém, a partir de alguns exemplos que ora me lembro, associo a uma forma de respeito, como ocorre, por exemplo, em alguns atos religiosos, na execução do hino nacional etc.

Pois bem: é certo que atualmente vem sendo feito de tudo para obrigar todos a permanecerem de pé perante o dinheiro, mesmo porque, se não for assim, aumenta significativamente o risco dele resolver não passar por perto, deixando-nos literalmente prostrados...

Contudo, essa de catequizar a “reuniões de pé” para “melhorar o desempenho no ambiente de trabalho” é de uma estupidez tamanha que não se consegue assimilar nem deitado.

Não estou aqui falando de mais uma excentricidade de um “todo poderoso” detentor de vários postos de trabalho que, diante da massa de pessoas atrás de um emprego, a fim de mantê-la “curvada”, se coloca na condição de criar regras de seleção ou manutenção nitidamente desconcertantes.

É que a maluquice, possivelmente partida de um desses, ganhou corpo e já “viralizou” para outras plagas (sem tlocadilhos, por favor!), ganhando (obviamente) um pomposo rótulo que mascare o seu veneno: “stand up meetings”

É semeando essas crises de humanidade em nossas amplas e férteis áreas que proporcionamos tamanha colheita de frutos estragados, até o dia em que nos dermos conta de que, no fundo, não dobrando, voluntária e primeiramente, os nossos próprios joelhos, é que vamos levando este mundo a não ter onde cair morto!






sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O mundo ideal



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O  MUNDO IDEAL

  Depois de 22 anos, 9 meses, 14 dias, 23 horas e alguns minutos de casado, para que a rotina não se transforme em algo modorrento - se é que rotina seja possível, diante das várias incógnitas proporcionadas pelo convívio diário num mesmo ambiente com esposa e seis filhos - estávamos o casal, em um dos raros momentos sozinhos na sala, assistindo a uma partida de futebol, quando ela, manuseando um controle remoto largado pelo filho menor aonde não deveria, estimulou o primeiro ou, no máximo, segundo time de todos os brasileiros de uns tempos para cá: - vai Chapecó!

  Como se tratava de uma partida real e ela “controlava” o jogo por meio virtual, adicionado ao fato de se tratar de minha eterna musa inspiradora, isso “estartou” (moderno, né? Deflagrou!) o meu cérebro a embarcar no “jogo”, passando a imaginar o que para mim ainda parece impossível, porém,... Sim, eu poderei me render, um dia, completamente, à tecnologia, sem minhas costumeiras e muitas ressalvas, no dia em que o Glorioso Botafogo estiver jogando e eu, de minha poltrona, puder controlar os jogadores adversários, através de um controle remoto de ultííííííííssima geração: gol nosso! Mais um! Outro! Estou sonhando!? Delirando!!!???

  Enfim, cada um tem o seu modelo de mundo satisfatório. Esse seria o meu. Mas como, infelizmente, nem todas as pessoas são botafoguenses, logo um torcedor do time xxxxxxxx (você???) apareceria com um controle remoto para tentar me vencer, assim, acreditando que continuarei com as minhas ressalvas com relação à tecnologia. 

  Seria simples se o mundo agradasse a todos do mesmo jeito! Mas, como não é assim, cada um vai tentando fazer o seu mundo, o que acaba interferindo no mundo do outro, deixando a situação como ora está! Nada boa, né!?

 Sendo assim, sem deixar de reconhecer que o meu bom humor momentâneo foi ocasionado por um fato inicialmente adverso, inspirando a tentar agir assim mais vezes diante de reveses, contribuindo um pouco mais para um mundo melhor, vou terminar é tratando de chamar a atenção do meu filho para que ele guarde corretamente o controle remoto ao terminar de usá-lo... 

  Mas antes, já que agora estou no controle do controle: - vai Chapecó!!!



domingo, 8 de outubro de 2017

O voo da borboleta



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O VOO DA BORBOLETA

  Segundo a literatura, existem quatro tipos de nados: costa, peito, crawl e borboleta. Se você conhece um mínimo de natação, costa não precisa explicar, né? Parto do princípio de que peito você também sabe o que é! Já o crawl,... Bem, pelo termo você já viu que ainda não resolveram “aportuguesar”. Pudera! Seria algo como “rastejar”(?). Logo, dispenso-me de tentar explicar minimamente, mesmo porque eu até consegui entender a razão, mas não vejo a mínima coerência. Por último, o borboleta...

  Acredito que o borboleta é porque alguém achou que era parecido com o movimento dela. Mas outros também acham que parece um golfinho,... O certo é que ficou borboleta e pronto! 

  Sou ruim em todos eles (mal, mal, o “cachorrinho”). Mas se tivesse que escolher, acho que o último seria o borboleta. Aliás, creio que não só eu, já que observo se tratar, frequentemente, daquele onde tem menos nadadores inscritos. Como dizem os especialistas: forte, gracioso e complexo. Bem executado é lindo, já sem a devida técnica,...

  Pois bem! Uma de minhas filhas, embora com 12 (doze) anos, já é “veterana” na natação! Considero que ela “passeia” bem pelos quatro nados. É atleta federada pelo Clube de Natação e Regatas Álvares Cabral. Porém, contra (quase) todas as solicitações, recomendações e prognósticos, “sobrevive” nadando “apenas” às terças, quintas e, quase sempre, aos sábados! 

  Logo, a sua carga de piscina é pequena se considerarmos o geral. Por ela, a propósito, seria ainda menor, mas o seu técnico, Marcos, não deixa ( - tem que nadar, Laís!)... Então, porque apesar de tudo, o “borboleta”, no momento, parece ser o que “está mais voando”?

  Nitidamente lhe “falta força”! 

  Ora, mas as borboletas são fortes? Sei lá. Vai que são! Mas, induvidosamente, não lhes falta graça e beleza no seu “nado” aéreo.

  Ao menos para mim, portanto, é isso: a falta de força vai sendo compensada, de alguma forma, pela enorme graciosidade de seu voo. Por enquanto vai conseguindo voar até bem assim. Aliás, hoje, conseguiu voar significativamente mais rápido, alcançando, ao menos momentaneamente, o posto de borboleta petiz mais rápida do país. 

  Um voo de arte!

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Choque de Gerações





CHOQUE DE GERAÇÕES 

  Qualquer daqueles que queira se dedicar a perceber minimamente quanto ao assunto, caso não se deixe levar por uma opinião previamente concebida, seja favorável ou contrária a essa disseminação, notará como tem crescido a quantidade de ambientes que impõem restrição à presença de crianças...

  Não estou me referindo a locais naturalmente impróprios, mas, por exemplo, hotéis e restaurantes, dentre outros usualmente voltados para qualquer faixa de idade, porém, em tempos mais recentes, de tal forma evidentes que acabam ensejando a percepção dessa segmentação.

  Na mesma linha, embora a questão passe pela livre opção de cada qual, chama a atenção o incremento de publicações motivadoras à vida sem filhos, ressaltando, dentre outros, aspectos extremamente caros ao mundo moderno, como liberdade e prosperidade econômica, por exemplo. Aliás, quanto a isso, forçoso reconhecer que atualmente está bem mais evidente, porém, não sendo de hoje que a reprodução sofre concorrência cada vez mais desleal em relação à produção, aspecto sagazmente explorado pelo imponente “ativismo econômico”, logo, a emprestar colorido todo especial a medidas que importam à redução da taxa[1] de fecundidade.

  Interessante, por sua vez, que na esteira do vácuo deixado pelo desprestígio às crianças, o mercado de animais de estimação, carinhosamente conhecidos por “pets”, se transforma em um formidável “nicho de mercado”, movimentando cifras extraordinárias, avançando em direção à ocupação de fatia maior de espaços, inclusive em locais outrora inacessíveis, ou, no mínimo, onde eram avistados de forma extremamente tímidas, como, por exemplo, paradoxalmente, naqueles acima mencionados como progressivos em restrição à presença de crianças.

  Como os argumentos são os mais variados possíveis, fico, portanto, a imaginar, se algum dia chegaremos à necessidade de submeter estabelecimentos, em geral, ao cumprimento de regras relativas a “cotas” para crianças...

  Fato é que, em um universo mais amplo, a naturalidade quanto aos filhos se transformou em uma equação de difícil resolução, cheia de pormenores, um ambiente cada vez mais inóspito à sua recepção, amoldando-nos, inconscientemente, a reforçar essa situação.

 Curiosamente, não por acaso, esse processo ocorre no exato momento em que se transmite uma necessidade sôfrega de alcançarmos centenas de anos de vida. Assim, enquanto a concepção se transforma num vestibular de cada vez mais difícil aprovação, a longevidade, por sua vez, uma espécie de perseguido bônus pela não reprovação!

  É nesta mesma época que se conseguiu a incrível façanha de associar, marcantemente, nascimento a descuido, dando vazão à proliferação massificadora de métodos de contenção, ao mesmo tempo em que se carreou o sexo para o patamar de uma trivial forma de lazer.

  O mais grave, contudo, é a negativa em reconhecer direito a quem passou no vestibular, como se, por algum motivo, em situações que cada vez mais se busca ampliar, tivesse fraudado o certame, impingindo-lhe pena capital do aborto.

  Nasci na época dos “baby boomers”. É impossível não se lembrar que crescemos embalados pelo sentimento repetido a todo canto de que éramos “o futuro da nação”! Afinal, a vida é uma maratona de revezamento, cujo bastão apenas ora está conosco.

  Legitimamente, os outrora “baby boomers” querem carregar o bastão pelo maior espaço de tempo possível. Mas, em algum instante, , por mais que se evolua em métodos para tal, podem não ter força para conseguir fazê-lo sozinho. Impossível não pensar que em um momento cada vez mais próximo, como entoam os sentimentos repetidos a todo canto, “o futuro da nação” continuará sendo nós mesmos, porém enquanto “old boomers”...

  Em termos econômicos, a principal sutileza está no pseudo e inebriante poder que isso proporciona, alongando a dependência das gerações sucessoras, porém, diminuindo-lhes a capacidade de autogestão, moldando políticas de mercado - fortemente lastreadoras das públicas e não o inverso, como deveria ser - em torno da apropriação da maior fatia possível desse “filão”, como sugere o fenômeno da “geração nem-nem (nem estuda e nem trabalha. E porque e como todos o fariam, diante de uma massa cada vez maior de desempregados, ultrapassando os 14.000.000 só no país?).

  Também o crescente fenômeno da “previdência privada”, desde o dia do nascimento, quando não se sabe sequer como será o dia de amanhã. O dever de alimentos e do próprio abrigo no lar, estendidos para idade cada vez mais distante dos 18 anos, como disciplina a Constituição Federal, no artigo 229[2]. A propósito, aumentam, inclusive, os casos de responsabilidade complementar dos avós por prestar alimentos aos netos.

  Aliás, com o lar se transformando em local de rápidos encontros de seus habitantes, cercados de afazeres fora dele, fica-se a imaginar como as nossas crianças, cujo tempo outrora voltado à convivência familiar encontra-se cada vez mais terceirizado para outras pessoas e instituições, se portarão, quando adultos, perante os seus pais idosos, se esses necessitarem de cuidados especiais.

  A questão fica ainda mais alarmante se analisarmos que além do quadro atual não ser dos mais agradáveis, a média de filhos dos futuros idosos, a dispensar-lhes cuidados especiais, em caso de necessidade, já é inferior aos pais que os geram, o que se soma, ainda, a uma expectativa de vida maior e com os genitores menos sujeitos a viverem juntos até o fim de suas vidas.

  Trata-se, portanto, de um conjunto de fatores que costuma ser abordado de forma fracionada, como se não estivessem interligados, a sugerirem políticas públicas voltadas para a valorização do corpo social, a família, base que precede a cada qual dos membros que a compõe, dia a dia mais arrastados à individualidade como sendo o todo.

  Se avançamos de tal forma que praticamente cada um dos membros goza de normas que visam à sua promoção, individualmente, por outro lado, parece que nos esquecemos que o braço e a perna, de alguma forma, se interligam, entre si e com o restante do corpo.

  Ou, enfim: se não houver a promoção do corpo social, que é a família, a política voltada para cada qual dos seus membros apenas camuflará a falência geral: morre o corpo, agonizam os membros, anestesiam os órgãos...

  Se a família, enquanto estrutura basilar, não for voltada para a consolidação de objetivos comuns, o lar acaba se transformando em um espécie de “self service”, onde o objetivo passa a ser se servir da melhor forma possível, mediante o menor custo, de modo mais rápido e com o mínimo de compromissos com o que fica para trás. 

  Ocorre que se até uma pousada possui regras, a relação entre pais e filhos não pode, evidentemente, deixar de evidenciá-las, pois embora tenha se tornado bem mais comum a presença do salutar diálogo, diga-se de passagem, esse deve estar inserido em um contexto onde não se desnature a necessária autoridade ínsita à condição de pais.

  Daí advém o importante aspecto relacionado aos limites, já que esses se mostram necessários, pois ínsitos à criação. Por mais que seja extremamente relevante o exercício da arte de negociar, a possibilidade de imposição, como característica inerente ao cumprimento da regra, deve ficar bem nítida na relação.

  É óbvio que essa ferramenta, essencial ao processo de criação, encontra os seus limites na legislação vigente no país, embora exista margem extremamente ampla para que os pais exerçam o seu papel inerente à criação, baseados em parâmetros de proporcionalidade, ou seja, dose de acordo com a necessidade, ressalvando-se que quanto mais tardar o início deste processo, maiores as chances do remédio apresentar menos efeitos, ante às possibilidades de agravo do quadro.

  A propósito, que fique expresso que uma relação entre amigos não guarda, em sua essência, a delimitação de limites por parte de um e a obediência por parte do outro, diferente do que ocorre com a paternidade.

  Logo, não se pode confundir paternidade com amizade, o que, a rigor, não representa nenhum obstáculo à construção de parâmetros sólidos de confiança, respeito e afeto, comuns tanto a um como ao outro, embora o processo de criação estabeleça como premissa básica, norteadora da relação, a direção por parte dos pais e a obediência por parte dos filhos, enquanto menores.

  E, convenhamos, se com limites já é extremamente difícil criar, sem eles a missão se torna bem mais complicada.

  Contudo, o que não falta é diversão para anestesiar-nos das graves consequências desse nítido choque de gerações. Tanto que os adultos estão cada vez mais infantis. Muitas vezes até mais do que os próprios filhos. Verdadeiros “bebezões” (se as crianças não são infantis, a infantilidade é dos adultos!). Logo, no sentido inverso, para as inexperientes crianças, cada vez mais cedo, haverá um vácuo que tenderão a tentar ocupar, portando-se como verdadeiros “chefinhos da casa”. 

  A rigor, no fundo, antes da imposição de limites para os filhos, quem está mais necessitando de limites, primeiramente, são os pais. 

  Nessa linha, embora constitucionalmente as crianças e os adolescentes sejam previstos como “prioridade absoluta”, naquilo que efetivamente importa, não é incomum serem tratados como acessórios e não o principal, já que a “prioridade absoluta”, no fundo, parecemos ser nós mesmos. Especialmente no caso de desentendimentos e rupturas dos “gestores” das vidas dos rebentos. 

  Enfim, a família não é apenas um aglomerado individualizado de membros sob um teto comum, mas uma instituição voltada para convivência comum e que, necessariamente, nas várias etapas da vida, deve administrar aspectos não tão simples, mas decorrências naturais da sua existência, como alegrias, tristezas, reciprocidade, tolerância, cuidados, receitas, despesas,... Ufa! 

  É um trabalho tão hercúleo que aproveitando o fato de já termos chegado à “Geração Z”, temos um alfabeto completo para tentar se desincumbir da tarefa, já que uma letra sozinha o máximo que conseguirá é o q? 
 


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[1] Termo que, aliás, acho horrível, pela inevitável associação ao tributo, prestação pecuniária.
[2] “os pais tém o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade”