terça-feira, 23 de junho de 2026

Um ode que só ex pode!

UM ODE QUE SÓ EX PODE!
    
Não sou daqueles que ficam lamentando por ter feito ou deixado de fazer isso ou aquilo. Aliás, muito pelo contrário, sempre acreditei e continuo firme na máxima de que se você passar por uma rua ao invés de outra, apenas um detalhe, tudo pode ser diferente na sua vida; só  não pode ser diferente a vontade de pavimentar, da melhor maneira possível, a estrada, qualquer que ela seja.

Porém, esses dias estava na prazerosa cidade de Nova Venécia, tomando uma cervejinha com o compadre Tião Menon, temperando um pouco do miolo de minha mal passada carne, devido à rotina um tanto carregada, nos últimos dias, quando, dentre os assuntos mais amanteigados, surgiu a informação, ornada de fino azeite, no sentido de que em breve ele iria participar de um garboso encontro de ex-seminaristas.

Na hora veio a ideia desta crônica! Eu não aguentei. Rimos de se esfarinhar. Como eu ventilei, no início, procuro não dar asas à inveja, até porque, ao invés, prefiro utilizá-las como ingredientes para um bom churrasco.  Aliás, gastando um dos meus quatrocentos e noventa pedidos de perdões que eu certamente tenho direito, em se tratando de acontecimento de ex-seminaristas, incluindo o Tião, churrasco é justamente o segundo item a  que me remete o evento. O primeiro, óbvia e espertamente, prefiro não declinar, porque pode me absolver ou condenar, sumariamente, dependendo do gosto do freguês, daí porque cada qual pode interpretar do jeito que melhor lhe descer pela goela, com calma, passando pelo coração, até chegar à alma.   

Apresso-me a justificar que me sinto identificado e realizado como casado, há trinta e um anos com a veneciana Claudia, com quem, inclusive, tenho seis filhos. Na verdade, quando a conheci, ela estava muito mais próxima de seguir vida exclusivamente religiosa do que eu, um sujeito que, embora não próximo de fariseu ou saduceu, também distante de um galileu. A propósito, nunca pensei e acredito que não teria vocação para a belíssima missão de padre. Mas, se para ser ex-seminarista é preciso, antes, ter sido seminarista, quem sabe eu pudesse ter chegado a esse degrau intimista?... 

O que tenho de amigo que é ex-seminarista,... Certamente que iria com muita alegria para esses encontros, tão propalados pelos mesmos. Católico eu sou, rezar eu rezo; se nem todo dia pra mim sextou, aproveitar boa ocasião eu também prezo,...

Bom encontro Tião! Ex-tensivo aos que não se ex-traviam da ex-periência, se reunindo, de quando em vez, para confirmar a ex-istência! 



Luiz Antônio de Souza Silva



PS: Apesar de ser "um ode que só ex pode", na minha lista, enquanto cronista, padre  é um ex-seminarista, ungido, portanto, o primeiro a ser incluído! Também  o seminarista, que não é um ex, mas está no meio, logo, o mais próximo dos dois lados desse pastoreio;          

sábado, 20 de junho de 2026

Eu, uma vez flamengo. Ele, sempre flamengo!


EU, UMA VEZ FLAMENGO. ELE, SEMPRE FLAMENGO!

Foi meu irmão que me deu a triste notícia: - faleceu, neste domingo, dia 14.06.2026, Marcelo Norbim de Carvalho.

Avistara os seus pais, pouco antes, como era de costume, na Missa das 7 horas, na Igreja Cristo Redentor, em Goiabeiras.

Sabia que enfrentava delicado quadro de saúde. Porém, as vezes em que o encontrava, ele minimizava. Não permitia que se preocupasse com sua situação. Falava de vários assuntos, especialmente futebol. Nesta nossa fase mais madura, não exaltava demasiadamente o seu Flamengo, nem tripudiava do meu Botafogo, muito pelo contrário. Comumente me dava "uma força": - Desta vez o Botafogo vai! Acredito até que o Glorioso chegou àqueles títulos recentes devido a tamanha insistência dele, nessa "crença", que nem eu mesmo tinha...

O Marcelo era assim...

Eu e minha esposa conseguimos ajeitar nosso dia e comparecemos ao velório e sepultamento. Enquanto, forçosamente, nos despedíamos de um querido que vai, encontramos outros que não víamos faz bastante tempo e é impossível, respeitosamente, não trocarmos algumas palavras, ainda que naquele ambiente de profundo pesar.

Já tinha a ideia fixa de registrar em algumas linhas, que são imortais, a admiração pelo Marcelo, o que se tornou certeza quando, dentre tantos queridos, me deparei com a irmã do José Cani Júnior, outro grande amigo, que seguiu para o plano celeste em 2021, me inspirando, à época, a algumas linhas, a partir do "Falaê Querido!", saudação que sempre usava em nossos diálogos.

Não lembrava de todo conteúdo, mas revisitando o escrito, me deparei com este parágrafo, que, casualmente, remetia ao Marcelo:

"... Aliás, outra coincidência: o contato profissional com o recém-falecido surgiu a partir de um automóvel que comprei do Marcelo Carvalho, outra grata amizade que trago do Bairro Solon Borges, até os dias de hoje. O ano era 1992 e eu iria fazer o primeiro seguro de um automóvel (para ser mais preciso, um gol GT preto, ano 1986), já que, até então, os carros que tivera nunca me levaram a tal iniciativa. Não lembro como cheguei à pessoa do José Cani Júnior, mas foi com ele que fiz e renovei o seguro desse carro e de todos os outros que lhe sucederam, como assim também ocorreu com os da minha esposa, a partir de 1995, até os dias de hoje."

- Olha o Marcelo aê gente! Eu acabara de assumir um cargo público, que me levaria a diversas viagens para o interior do Estado. Tinha um Voyage, acredito que ano 82, que, bastante cansado, não estava disposto a seguir comigo nessa missão. Nem me lembro como chegamos ao negócio, incomum tanto para mim, quanto para o Marcelo. Mas o certo é que fizemos a transação e esse carro permaneceu comigo um bom tempo.

Mas isso é apenas um mero detalhe em meio ao que realmente tenho a transmitir com relação à profundidade do respeito e admiração pelo Marcelo: sua bondade infinita!!!

Ele era uma pessoa tão boa, de um coração tão grandioso e generoso, desde os tempos lá atrás, até os mais recentes, agora na padaria Nova República, que me levou, há alguns anos, a uma ação quase inimaginável: o presenteei com uma camisa do Flamengo, que adquiri por um preço que jamais compraria uma para mim, mesmo se fosse de um time bem superior, no caso, o Botafogo rsrs.

Minha esposa e meus filhos sabem do meu carinho pelo Marcelo, pois já contei algumas vezes sobre episódios de nossas vidas, que, aliás, me inspiraram a utilizá-lo como exemplo de bondade genuína a ser refletida, enquanto pai na busca de transmissão de valores aos filhos.

A título de exemplo: estudávamos na mesma escola "Marechal Mascarenhas de Moraes", no Bairro Solon Borges e, durante um ano, na mesma sala. O Marcelo é filho de "seu Carvalho", então comerciante, proprietário do famoso "Bar Rubro-Negro", que se situava na Avenida Fernando Ferrari, em frente ao atual Assaí Atacado.

Infância difícil, comumente sem dinheiro para uma bala sequer. Tinha a merenda da escola, ok. Mas, além disso, haviam aqueles que partilhavam um pouco do que levavam. E o Marcelo se destacava na divisão de seus lanches e guloseimas. Naquelas condições e da forma despretensiosa que ocorria, o sabor era tamanho, que permanece na minha boca até hoje e nela ficará para todo o sempre. E se me perguntarem quais eram os lanches e guloseimas, eu não me lembro. Mas a graciosidade dos atos do Marcelo, isso eu nunca esqueci. Aliás, jamais teria condições de esquecer, mesmo porque, até o fim de sua vida terrena, a sua desprendida conduta nunca deixou de ser nessa mesma linha.

Marcelo foi alguém tão esplêndido que até o incerto "dia e hora" em que faleceu foi estrategicamente preparado pelo destino para ser o menos traumático possível, especialmente para seus pais, ante a ainda mais dolorosa missão de sepultar um filho, quando, comumente, na "ordem natural", ocorre o inverso.

Nesses casos não há razões, não há motivos, apenas conformação e elucubrações: - Porque Senhor? Precisava mesmo tanto dele aí? Já chegou? Para qual missão?...

Enfim, só saberemos quando também chegar o nosso "dia e hora", se o Senhor entender que somos merecedores de estarmos no mesmo plano celestial que ele certamente está.

Aliás, como não sei como funcionam as coisas aí no céu, seja qual for a missão conferida ao Marcelo, certamente algo voltado a fazer-nos crer num céu ainda mais formidável do que infinitamente já é, rogo que seja providenciada uma vistosa "calmisa" do Flamengo para a alma rubro-negra dele, e que ele, dentre tantas outras possibilidades, se transforme nesse "influencer divino", alcançando daí, aqui na terra, alguns milhões de seguidores dessa aura capaz de transformar a odiosa guerra entre torcidas em um universal ambiente de paz. A propósito, pelo algo muito maior que conseguiu traduzir para mim a respeito, dia 27 de junho, seu aniversário, no meu íntimo, será celebrado, simbolicamente, esse ideal, daqui pra frente.

Pois é Marcelo! Seja na terra, seja no mar, você foi Flamengo até morrer. Agora, no céu, é meu maior prazer vê-lo brilhar. Afinal, aqui é treinamento. Depois de morrer é que mais importa vencer, vencer, vencer...

Sublime e saudoso abraço, celeste amigo!


Luiz Antônio de Souza Silva

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O sentido da vida

 

O  SENTIDO DA VIDA

Embora não exista definição precisa a respeito, ao longo da história, muitos se voltam para oferecer pistas visando satisfazer essa dúvida da humanidade: afinal, qual é o sentido da vida?

Evidente que não serei eu a conseguir a proeza de apresentar um conceito razoavelmente sólido sobre o tema, muito menos essa é a pretensão, até porque, mesmo se a humanidade chegasse a um impossível consenso, não conseguiria impor um sentido para a vida de alguém, pois se há algo que gira em torno dela, fundamentalmente, é o livre arbítrio!

Nessa linha, prefiro a advertência de Roberto e Erasmo: "se o bem e o mal existem, você pode escolher. É preciso saber viver!".

E Gonzaguinha bem ilustra que saber viver é aceitar e estar disposto a seguir aprendendo, enquanto se vai vivendo (e vice-versa): "viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar, a beleza de ser um eterno aprendiz".

E pronto! Quer um sentido para a vida? Não tenha vergonha de ser feliz, opte pelo caminho do bem e se proponha a ser um constante aprendiz!

De qualquer forma, embora a vida nos proporcione a oportunidade de sermos eternos aprendizes, certo é que o exercício do livre arbítrio pressupõe a possibilidade, a necessidade e a responsabilidade por escolhas, umas mais, outras menos importantes, mas que, de alguma maneira, acabam por ir moldando o sentido da vida de cada um.

Obviamente, optar por este ou aquele sapato, em princípio, não influirá na vida de ninguém, mas, a título de exemplo, por esta ou aquela profissão ou emprego, relacionar-me com esta ou aquela pessoa, ter ou não um filho, já são escolhas, no exercício do livre arbítrio, que impactam também outras vidas, além da própria.

Aliás, dentre as três, a profissão ou emprego é aquela que, em tese, mais tem a ver com caráter de unilateralidade na escolha, logo, com as responsabilidades e consequências decorrentes da opção.

Passando para o relacionamento, já muda de figura, pois por menor que seja o comprometimento e o tempo de duração, pressupõe limites à plena autonomia, considerando que as escolhas daí decorrentes tornam-se, de alguma maneira, entrelaçadas, assim como as consequências, que não deixarão de adentrar e atingir, também, o universo de outra pessoa, além da própria.

E, chegando aos filhos, nascem e permanecem totalmente dependentes de escolhas que não são feitas por si, com enorme potencial de influírem inclusive na oportunidade de fazê-las. Daí, uma imensa e intransferível responsabilidade dos pais pelas opções que fazem, especialmente até o momento de entrega mais definitiva do bastão que levará adiante o sentido da vida de cada um dos novos aprendizes de sua mais instigante lição.

Luiz Antônio de Souza Silva

sábado, 6 de junho de 2026

Sua excedência, o ser humano (apagão humanitário)


SUA EXCEDÊNCIA, O SER HUMANO (APAGÃO HUMANITÁRIO)

Fico impressionado com o "contorcionismo" utilizado para tentar negar o óbvio no tocante à desvalorização do trabalho humano em comparação com as inovações tecnológicas que a cada dia ocupam mais espaços, como se o surgimento de alguns e a extinção de outros postos de trabalho, independentemente de uma análise e políticas públicas mais sensíveis e profundas, fosse matemática suficiente para atestar o "equilíbrio"!

Ora, além de as inovações serem realmente sedutoras, ninguém é "casado" para sempre com o passado! Portanto, mesmo uma adesão social desenfreada pode ser vista como algo normal no ciclo evolutivo. Mas não para as políticas públicas, já que elas devem considerar todos aspectos envolvidos na questão, sendo o trabalho, inegavelmente, um deles!

Na verdade, nessa cadeia voraz de superficialismos que vivenciamos, as inovações tecnológicas, antes de serem pensadas, prioritariamente, para o que realmente necessitamos, se voltam para criar e alimentar aquilo que querem que precisemos. Se conseguir unir as duas coisas, melhor; porém, essa não é a finalidade principal.

Isso vale para muito mais do que o campo específico do trabalho humano, embora esse deva estar bem próximo do eixo central de qualquer planejamento estrutural, pela sua importância para demais políticas públicas.

A primeira encíclica do Papa Leão XIV - Magnifica Humanitas, "sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial", publicada recentemente, não condena essa poderosa ferramenta, mas ressalta, sabiamente, que ela deve servir à humanidade e não ao poder de poucos.

Sem limites éticos, potencializa controle, dominação e exclusão, pois, longe de ser neutra, reproduz e dissemina valores de quem a cria, financia e comanda, transformando em premissa absolutamente natural o desemprego (e subemprego) em massa em nome de inesgotável redução de custos e aumento do lucro.

Entretanto, operando de forma extremamente persuasiva, inverte a lógica de quem efetivamente protagoniza essa completa disrupção no campo do trabalho, disseminando precariedade, instabilidade e invisibilidade como perfil de uma nova e moderna identidade, baseada em um verdadeiro apagão humanitário, que desmonta justamente sua linha de frente, onde, historicamente, sempre esteve o ora apagado e hoje cada vez mais próximo da condição de sumariamente julgado e condenado, pelo fato de se encontrar desempregado.

Como vaticinou Hannah Arendt, décadas atrás, em "A Condição Humana", alertando quanto à maléfica perspectiva de uma "sociedade de trabalhadores sem trabalho".

Enfim, não há como atribuir excelência a um mundo que contribui, dramaticamente, para a transformação de seu principal destinatário, o ser humano, em excedência!