domingo, 22 de dezembro de 2024

O pombo de natal

O POMBO DE NATAL

Minha esposa, muito agitada:

​- Amor, sobe aqui, tem um pombo em nossa varanda, acho que ele está ferido, pois não está conseguindo voar.

​Mas que pombas! Justo agora, que eu não estava fazendo nada, algo tão difícil de eu conseguir (não) fazer...

​Porém, era um aflitivo chamado da esposa, razão pela qual me dirigi imediatamente ao "local do fato".

​Como a porta de vidro estava fechada, antes de abri-la (sabe-se lá se o pombo - ou pomba resolve entrar...) peguei o que encontrei pela frente para tentar "animar" a ave, torcendo para que ela voasse: uma pazinha e uma bacia!

​Abri a porta, passei, fechei-a novamente, eu e o(a) pombo(a) nos fitamos, até que, vagarosa e sutilmente,tentei estimulá-lo com a pazinha... Nada! Mal sucedida essa tentativa, ainda com a pazinha, o coloquei na bacia, pretendendo descer com o mesmo, foi quando, inesperada e sapecamente, ele voou e foi embora, após uma breve parada nos fios defronte à nossa casa.

​Intrigado, mesmo porque nunca tinha me deparado com um pombo tão "fingido", resolvi "investigar" melhor "o fato". Perguntei à esposa sobre os detalhes.

​Tendo ela falado que percebeu o pombo "bicando" insistentemente o vidro, como se quisesse entrar, "matamos a charada":

​Montamos nossa árvore de natal e ela é iluminadamente bem chamativa, com os seus pisca-piscas azuis, amarelos e vermelhos. O pombo (acho que era uma pomba!) se encantou perdidamente com aquela árvore, queria porque queria fazer um ninho no local, usando de toda sua artimanha para tentar alcançar o objetivo...

​Infelizmente não entendi a tempo, pois poderia tentar encaminhá-lo para alguma (cada vez menos comum) árvore de natal que não fosse a minha (rsrs),...

De qualquer forma, o que realmente ficou dessa inusitada situação, foi como o natal ainda acaba servindo de inspiração para nossas inimagináveis fantasias, além, ao que parece, as de alguns outros seres vivos que nos rodeiam, especialmente aquele que, infelizmente, se deparou com minha porta fechada, mas, torço, mensageiro da paz, encontre maior hospitalidade na sua, a fim de depositar sua inesgotável magia...

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Medalhas pretas e douradas


MEDALHAS PRETAS E DOURADAS

Acostumados ao senso comum, ao ouvirmos a palavra queniano, dificilmente mentalizaremos imagem diferente da que retrata um atleta de corridas preto, magro, veloz e vencedor! Até o Google remete a isso!

É o que basta para definir um país e um povo que vai muito além disso, porém, que, como tantos outros, pouco atrai o interesse quanto aos seus demais importantes aspectos que dizem respeito a um mundo chamado de globalizado.

Aliás, de tão globalizado que, na maratona de Chicago, ocorrida em 13.10.2024, com os atletas pretos e pretas à frente, como é comum mundo afora em que estão presentes, destacavam-se os coloridíssimos supertênis que calçavam, seguramente, cada vez mais distantes da realidade da maioria, porém, significativos para efeito daqueles preciosos segundos entre a glória e o quase.

Ao se referir a essa revolução tecnológica dos tênis, Jonatham W. Rosen (autor em MIT Technology Review, 17.07.2024), destaca que "em poucos lugares seu efeito foi mais pronunciado do que no Quênia, onde correr não é apenas um esporte, mas uma estratégia de saída de uma vida de pobreza. Nesse sentido, os novos tênis de alta tecnologia são uma espécie de benção mista, dando um impulso aos corredores estabelecidos com patrocínios de empresas e, ao mesmo tempo, formando um obstáculo para aqueles que ainda anseiam por sua grande chance".

Extrai-se, ainda, do detalhado texto: "entre a legião de sonhadores de Iten (no Quênia), Kandie tem mais sorte do que a maioria: seus pais a veem como um futuro ganha-pão, por isso apoiaram sua busca e até venderam um terreno agrícola para que pudessem comprar para ela um par de (...) verde e rosa neon...".

Logo, "benção mista" é uma boa definição para essa revolução, já que, sendo inegáveis seus benefícios, por outro lado, aumenta para distância "ironmétrica" a que a separa do enorme contingente que ainda vive realidade próxima de 1960, quando o africano Abebe Bikila venceu a Maratona dos Jogos Olímpicos de Roma, utilizando como "amortecimento" a própria sola dos seus pés descalços.

Em comum, tanto naquela época (aliás, bem antes dela!), quanto nesta, são as dificílimas páginas muito bem escritas, à frente, pelos pretos e pretas, nessa história.

No contexto, põe-se a pensar sobre movimento também marcante desse nosso mundo globalizado, que, longe de se propor à diminuição de barreiras e promoção mais efetiva dessas nações de origem, cuida em delas pinçar destacados atletas, para, cada vez mais, competirem por outros países.

No fundo, como costumo refletir: só não revelamos mais campeões por culpa nossa, pois cada nascimento traz consigo seus trofeus!

Por fim, em termos de Brasil, um destaque especial para as mulheres, que, apesar de comumente superarem histórias mais desafiadoras, nas recentes olimpíadas de Paris, conquistaram nossas três medalhas mais cobiçadas, por sinal, todas elas douradas e pretas!

terça-feira, 27 de agosto de 2024

YANESTÊVÃO FUTEBOL CLUBE


YANESTÊVÃO FUTEBOL CLUBE

Sabe você ser o cara pinçado em meio à torcida por aquele jogador que vive fazendo gols e corre para comemorar e dedicar aquele feito a você?

Pois é! Me acostumei muito com isso, já que há quase duas décadas acompanho um desses vocacionados atacantes, o meu primogênito, Estêvão!

Sem favor algum, poderia ter trilhado caminho diferente! Oportunidades apareceram, mas, preferiu, de sua infância até os dias de hoje, iniciar no Vitória, pouco depois rumar para o Pedra da Cebola, de onde migrou, mais regularmente, para o futebol de areia, onde emprestou o seu brilho, primeiramente, ao "Meninos da Ilha", depois ao Rio Branco e, a partir daí, a alguns outros times e seleções municipais, onde, aliás, no momento, se encontra, jogando pela de Vitória, não desconsiderando sua passagem em campeonatos nacionais e até por times internacionais, como o Malvin, do Uruguai.

Ultimamente, porém, venho sentindo a perda de um pouco do meu prestígio, no meio da torcida!

A propósito, quanto a isso, importante fazer outro registro, pois é impossível deixar de realçar, dentre outros momentos futebolísticos, o vívido pelo Estêvão enquanto estudante e atleta da MedUfes!

Viveu intensamente os seis anos, dando um jeito até de estendê-los, encontrando uma brechinha para egresso, residente etc.

Dias de glória nas areias, nos campos, nas quadras, mediante muita intensidade, dribles, gols, títulos,... Enfim, o sentia como se estivesse sempre "em casa", no seu "Allianz Parque" (para quem não sabe, o estádio do Palmeiras, seu time de coração!). A propósito, o Estêvão Segundo (aquele recentemente convocado para a seleção brasileira), seria ainda melhor se tivesse umas aulinhas com o original, o nosso Dom Estêvão Primeiro.

Voltando à perda de um pouco do "meu" prestígio junto à torcida, comecei a sentir isso justamente na época da MEDUFES.

Dentre os vários tipos de comemoração, sentia que aqueles "coraçõezinhos" não eram para mim,... Era a Yana entrando em campo! Uma grande dupla se formando: Estêvão com a imortal camisa 15, Yana com a célebre 10!

Há quase 30 anos eu passei por isto! Comparando com meu filho, eu não jogava nada, mas tal qual ele, naquele fundamental momento da vida, firmei parceria para formarmos o maior e melhor time de nossas vidas: parodiando Jorge Ben Jor, "foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa, que a galera, agradecida, se encantava..."

É isso, Estêvão; É isso Yana! Nunca foram e jamais serão vãs as exortações trazidas em Gênesis, capítulo 2, versículo 24: "O homem deixa seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher e já não são mais que uma só carne"! E vice-versa!

É esse fantástico ciclo da vida que vocês tão maravilhosamente brindam hoje, dividindo conosco, seus seletos convidados, a alegria, o orgulho e o testemunho desse marcante enlace!

Por fim, nesta crônica aberta, o que quero dizer é que eu estou preparado! No recente dia dos pais, quando estávamos na Arena da Praça dos Namorados, você, inspirado, mas talvez ainda em dúvida sobre como comemorar, naquele dia específico, fez tantos gols que dava para comemorar comigo, com mamãe, seus irmãos e, óbvia e primeiramente, com sua agora esposa, Yana! Como fez e o fará por todos os dias de vossas vidas!

Uma transição perfeita!

De agora em diante, um só time, um só coração, uma só alma, UMA SÓ CARNE!

Quanto a mim, ao lado de sua mãe, além dos pais da Yana, reivindicamos apenas a condição de líderes da torcida organizada do Yanestêvão Futebol Clube!

Parabéns e Felicidades! Deus lhes abençoe! A bola está com vocês!

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

O político eletrônico

 

O POLÍTICO ELETRÔNICO*

A propósito das inovações tecnológicas substitutivas de postos de trabalho da população, já seria imaginável, também, conviver com o político eletrônico?

Apresentada como parceira, especialmente na execução de atividades perigosas e insalubres, visando proporcionar mais tempo livre para o bem-estar do ser humano, a automação foi ganhando espaço em nosso meio, nas últimas décadas, até que, mais inserida, passou a alcançar, também, trabalhos tidos como repetitivos ou burocráticos, sob premissa de mais agilidade, competitividade, produtividade, dentre outros fortes argumentos para opor-se às previsíveis resistências.

Assim o ser humano foi se acostumando com a ideia de que suas habilidades para o trabalho devem acompanhar e se adequar ao ilimitado avanço das inovações, agora já no fantástico estágio da inteligência artificial, para que não seja varrido do ciclo evolutivo.

Porém, tivessem as inovações substitutivas no campo do trabalho se iniciado pelas posições mais elevadas, induvidoso que não estaríamos diante de uma visão tão desumanizada quanto ao tema, pois os rumos, certamente, teriam sido mais equilibrados.

Fato é que, atualmente, a solução mais adequada de gestão, parece vir quase sempre acompanhada da diminuição da necessidade de alguém, mediante implantação de alguma coisa, tanto maior o encantamento, quanto mais rebuscada e ousada esta for!

Ora, se é assim, não há dúvidas de que a implantação do "político eletrônico", como várias outras posições socialmente proeminentes, é apenas questão de um tempo maior, aliás, devido bem mais ao poder inerente aos cargos, do que, propriamente, por espírito tecnológico-evolutivo e econômico-financeiro.

Vale lembrar, em contraponto, que mesmo sendo absolutamente ignorada, desde 1988, portanto, há 35 anos, o país dispõe de norma constitucional que garante a "proteção do trabalhador em face da automação".

Embora pareça uma "lei dura", ainda assim, "é lei" ("dura lex, sed lex")! Logo, o mesmo "laissez faire" (deixa fazer), que, quanto mais o tempo passa, mais consolida a inteligência artificial que sustenta o distanciamento da norma, será aquele que caberá quando se tratar de qualquer ocupação ainda não alcançada.

Mas, certamente, "não haverá motivos para preocupações", já que, como é comum, nessas situações, se disseminará que a diminuição ou extinção dos cargos, a serem ocupados pelos "políticos eletrônicos", será absorvida mediante as "novas habilidades e oportunidades em surgimento".

E, o que é ainda mais sagaz: diferentemente da imponência que geralmente a acompanha, a inovação não inviabilizará que a população continue indo às urnas, podendo optar por votar em políticos, humanos e imperfeitos como nós, ou no "político eletrônico", evoluidamente criado e cada vez mais preparado para, no mínimo, assombrar-nos a todos, enquanto trabalhadores, indistintamente!



* Publicado no Jornal A Tribuna, sessão "Tribuna Livre", p. 16, em 16 de fevereiro de 2024.