SUA EXCEDÊNCIA, O SER HUMANO (APAGÃO HUMANITÁRIO)
Fico impressionado com o "contorcionismo" utilizado para tentar negar o óbvio no tocante à desvalorização do trabalho humano em comparação com as inovações tecnológicas que a cada dia ocupam mais espaços, como se o surgimento de alguns e a extinção de outros postos de trabalho, independentemente de uma análise e políticas públicas mais sensíveis e profundas, fosse matemática suficiente para atestar o "equilíbrio"!
Ora, além de as inovações serem realmente sedutoras, ninguém é "casado" para sempre com o passado! Portanto, mesmo uma adesão social desenfreada pode ser vista como algo normal no ciclo evolutivo. Mas não para as políticas públicas, já que elas devem considerar todos aspectos envolvidos na questão, sendo o trabalho, inegavelmente, um deles!
Na verdade, nessa cadeia voraz de superficialismos que vivenciamos, as inovações tecnológicas, antes de serem pensadas, prioritariamente, para o que realmente necessitamos, se voltam para criar e alimentar aquilo que querem que precisemos. Se conseguir unir as duas coisas, melhor; porém, essa não é a finalidade principal.
Isso vale para muito mais do que o campo específico do trabalho humano, embora esse deva estar bem próximo do eixo central de qualquer planejamento estrutural, pela sua importância para demais políticas públicas.
A primeira encíclica do Papa Leão XIV - Magnifica Humanitas, "sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial", publicada recentemente, não condena essa poderosa ferramenta, mas ressalta, sabiamente, que ela deve servir à humanidade e não ao poder de poucos.
Sem limites éticos, potencializa controle, dominação e exclusão, pois, longe de ser neutra, reproduz e dissemina valores de quem a cria, financia e comanda, transformando em premissa absolutamente natural o desemprego (e subemprego) em massa em nome de inesgotável redução de custos e aumento do lucro.
Entretanto, operando de forma extremamente persuasiva, inverte a lógica de quem efetivamente protagoniza essa completa disrupção no campo do trabalho, disseminando precariedade, instabilidade e invisibilidade como perfil de uma nova e moderna identidade, baseada em um verdadeiro apagão humanitário, que desmonta justamente sua linha de frente, onde, historicamente, sempre esteve o ora apagado e hoje cada vez mais próximo da condição de sumariamente julgado e condenado, pelo fato de se encontrar desempregado.
Como vaticinou Hannah Arendt, décadas atrás, em "A Condição Humana", alertando quanto à maléfica perspectiva de uma "sociedade de trabalhadores sem trabalho".
Enfim, não há como atribuir excelência a um mundo que contribui, dramaticamente, para a transformação de seu principal destinatário, o ser humano, em excedência!